Publicado por José Geraldo Magalhães em Destaques Nacionais | 28/10/2015 às 16:47:50


Lutero como tradutor


Pr. Levy da Costa Bastos
Diretor do Seminário metodista César Dacorso Filho | Expositor Cristão - Out/2015
 
Estamos nos aproximando das comemorações do dia da Reforma. Tradicionalmente esta celebração tem sido relacionada com o dia em que Martin Lutero afixou no portão da Igreja de Wittemberg as suas 95 Teses, mas não se pode perder de vista que a Reforma é muito mais que isso. Ela foi um acontecimento de raiz religiosa, mas de implicações socioeconômicas. Lutero não foi somente um grande renovador da fé cristã. Ele foi também um grande conhecedor das Escrituras Sagradas e, por conta disso, seu mais proeminente tradutor para a língua alemã. Sua tradução da Bíblia não foi a primeira, é verdade. Antes dele houve quem tivesse traduzido a Bíblia para o Alemão. O que distinguiu a sua tradução foram os princípios que a orientaram. 
 
Para Lutero, a tradução não deve desconsiderar o mundo (cultura) também daqueles para quem o texto traduzido está sendo oferecido. Traduzindo o Novo Testamento do grego para o alemão, ele tinha a preo­cupação de que o texto final pudesse ser bem compreendido por seus/suas ouvintes: a criança que brinca na rua, a dona de casa e o homem simples do mercado. Ele recomendava que o tradutor não focasse na complexidade da língua da qual se traduz, mas sim na forma como o povo se expressava. A Bíblia traduzida tinha que “falar a língua do Povo”.
 
Traduzir era para M. Lutero como que tirar pedras e paus do caminho de quem lê o texto da Palavra de Deus. Nesse sentido, ele parece se aproximar do pensamento do filósofo e teórico da tradução Walter Benjamim quando este diz que não é somente a forma de bem compreender o original, mas também uma atividade que quase nunca é capaz de reproduzir o sentido que tem o texto original. Fidelidade ao original seria, pois, o mesmo que servilismo. M. Lutero quis resgatar, portanto, o profundo da significação do texto Sagrado, mas não o procurou em outro lugar senão no próprio universo linguístico do povo pobre. Exerceu uma forma antecipada de inculturação. O texto original, quando traduzido, deve encontrar identificação com a cultura que o recebe. Nisso se delineia a peculiaridade da tradução luterana. Ela encontra sua originalidade na medida exata em que se “atreve” a dar nova significação ao texto original. Ela o recria partindo da preocupação com sua intenção original. 
 
M. Lutero julga e interpreta a palavra (e não a letra) que com mais fidelidade refletiria o que a Palavra de Deus queria dizer. É inculturação sim, na medida em que os leitores do texto traduzido poderiam reconhecer ali a Palavra de Deus em sua própria língua. 
 
Na base da tradução de M. Lutero, não se pode negar, está subentendido a angústia de toda uma geração. A transição da Idade média para a Modernidade provocava a inquietação das pessoas. Era realmente uma época de medos e ansiedade. Tais sentimentos se corporificavam na lancinante pergunta de M. Lutero: “Como eu posso encontrar um Deus que me seja gracioso?” (Wie kriege ich einen gnädigen Gott?). Sua teologia nasceu dessa pergunta e funcionou como uma tentativa de resgatar o verdadeiro sentido do Evangelho de Cristo: boa notícia de salvação para os que se encontram oprimidos. Daí a teologia da graça atuar como chave hermenêutica para toda a sua obra, inclusive seu conceito de estética. 

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