Publicado por José Geraldo Magalhães em Geral - 20/09/2013

entrevista MISSIONÁRIO RELATA LUTA POR CRIANÇAS RECEM NASCIDAS

Missionária relata luta por  índias recém-nascidas 


Nos últimos meses a história de duas índias recém-nascidas e que foram abandonadas para morrer no meio da floresta ganhou manchetes dos jornais e da televisão. As duas bebês da nação indígena Suruwaha foram levadas da Amazônia para São Paulo por um grupo de missionários.
A Funasa ( Fundação Nacional de Saúde), órgão responsável pela saúde indígena autorizou a saída e custeou as despesas aéreas para a remoção das crianças com suas famílias. As crianças foram transferidas para a cidade de Porto Velho e de lá encaminhadas para São Paulo.

A polêmica começou quando uma denúncia no Ministério Público impediu a cirurgia dos bebês. O argumento era que a retirada dos índios da aldeia, os deixaria expostos a doenças e ao choque cultural de uma cidade grande como São Paulo.

Entre os missionários que acompanhavam os indígenas estava a missionária metodista Márcia Suzuki. Como os Suruwaha não falam português, Márcia, o marido e mais dois missionários deram assessoria  aos índios como intérpretes.

Criada na Igreja Metodista em Cascadura, RJ, Márcia recebeu ainda adolescente o chamado de Deus para o trabalho missionário. Iniciou como missionária da Jocum em 1980. No final da década de 90, com a ajuda dos bispos Paulo Lockmann e Davi Ponciano Dias, veio o reconhecimento como missionária metodista. Atualmente, ela é missionária dos CMA designada para o trabalho indigenista em parceria com a missão Jocum (Jovens com uma Missão).

Márcia  morou com os índios Suruwaha. Hoje ela vive com o marido numa aldeia de outra etnia, os Maués - a tribo fica no interior do Amazonas. A viagem de Manaus até a aldeia dura em média 18 horas de barco.

Em entrevista exclusiva para o Expositor Cristão Marcia Suzuki fala sobre o que aconteceu com os Suruwaha.

Há quanto tempo você mora com os Maués?

Estou a 3 anos. Já tinha trabalhado com os Maués quando eu era solteira. Agora eu voltei.

Como você iniciou o trabalho missionário ?

Eu trabalhei 5 anos com os Taperé, depois fiz curso de formação de missionários, lingüística, antropologia, voltei a fazer faculdade, mestrado. Sempre fazendo trabalhos com tribos e ajudando os missionários.

Quando ocorreu o caso sobre as duas crianças Suruwaha que foram abandonada na floresta para morrer?

Foi em maio. Houve uma operação da Funasa, órgão responsável pela saúde indígena, para dar atendimento ao índios. Nessa viagem os médicos perceberam que havia problema em duas crianças da aldeia. Uma criança tinha genitália ambígua e a outra parecia ter paralisia cerebral, mas lá não tinham como diagnosticar. Então, os médicos perguntaram para a Funasa se as crianças podiam sair para exames na cidade.

Elas morreriam se continuassem na aldeia?

Pela cultura do Suruwaha toda criança que nasce com alguma deficiência é sacrificada.
No caso da criança com a genitália ambígua, na hora que nasceu a mãe abandonou no mato para morrer, já que a lei da tribo não permite que a mãe traga a criança doente para a aldeia. Ela voltou sozinha e ficou na rede chorando. Sentiu pela criança mas não podia buscá-la, não tinha coragem. Foi a avó da criança que pegou o bebê e o entregou para mãe. A mulher continuou apreensiva pois sabia que quando o seu marido voltasse, mataria a criança. Quando o pai chegou e percebeu que o bebê estava doente, pegou a flecha, mirou na criança, mas não teve coragem de atirar. Ele ficou nervoso, começou a chorar. Quando se acalmou o chefe da tribo veio e disse para ele levar a criança até a cidade pois, talvez, "os brancos" teriam a cura.

Com isso, o pai teve coragem para dizer que não mataria a filha, que esperaria os médicos para consultar.

Quando o helicóptero da Funasa chegou, a família mostrou a criança para os médicos. Os médicos informaram que a criança precisaria de um tratamento na cidade, só que no helicóptero não tinha vaga para levá-los. Os médicos ficaram de voltar depois de um mês para buscar as famílias.

A criança ficou na tribo?

Sim, como os helicópteros fazem as visitas carregados com médicos, enfermeiros e equipamentos, eles não têm vaga para voltar com gente doente. E os índios nunca saem sozinhos, sempre vai a família inteira, eles não têm coragem de separar a família. Nesse caso era o pai, a mãe com o bebê e mais um menino de três anos.

A que você atribui o fato dos pais não conseguirem matar a criança?

Ao acesso a informação. Até um tempo atrás eles não tinham a informação de que existia a possibilidade de cura para uma criança doente. Hoje eles têm. À medida que a pessoa de qualquer etnia tem acesso à informação, ela passa a ter mais opções. A única opção que eles conheciam era matar.

E como essa informação chegou a aldeia?

Por meio de nós. Você conhece minha filha? (Márcia mostra fotos da filha adotiva) Quando ela fez três anos os pais perceberam que ela e o irmão não falavam e nem andavam. Se fosse um tipo de doença que se percebesse logo que as crianças nasceram, elas seriam mortas. Mas a anormalidade apareceu mais tarde, mesmo assim a pressão social era muito forte para matar as crianças. Em toda a comunidade, o que eles diziam é que criança que não fala não tem alma. É uma maldição, então tem que matar.

E qual foi a reação dos pais?

O pai e mãe ficavam naquela pressão, naquele sofrimento, porque não tinham coragem de matar as crianças que já estavam crescidas, já tinham amor aos filhos e por causa dessa pressão acabaram suicidando-se. No enterro dos pais das crianças foi aquele choro na aldeia, aquele lamento normal de quando se perde alguém. Quando acabou o enterro,  o irmão mais velho voltou para rede e viu as duas crianças no chão. Aí ele decidiu que iria matar os dois. Pegou o facão e acertou a cabeça das crianças e depois as enterrou. O irmão menor, como estava desmaiado, não reagiu e morreu, a menina mesmo com toda violência, estava acordada e começou a gritar. Ele ficou com dó e a puxou para fora do buraco. Ela foi retirada da aldeia. Passou por um tratamento e começou a andar e falar. Quando ela voltou, eles viram que é possível ter uma cura. A partir disso, toda vez que tem uma criança doente eles perguntam: será que o médico da cidade pode curar?

Como funciona essa questão da informação? Não gera um conflito entre os índios?

Gera um conflito para o pai que deveria matar e ele já não quer mais. Ele luta dentro dele por causa de uma cultura que diz que ele deveria matar e não tem opção. Com a  informação, eles perceberam que talvez tenha cura.
Agora, quando tem que matar,  as mães choram, antes elas não choravam. Ela podia até chorar, sofria, mas não deixava ninguém perceber. Não tem gerado conflito de ressentimento na tribo, tem gerado conflito interno da pessoa não querer mais matar. Mas na hora que o pai e a mãe decidem não matar tem sempre o apoio da comunidade. Nesses casos, foram os próprios índios que falaram para levar pra cidade, quem sabe os brancos podem curar.

Não existe a preocupação de que esse conflito dos pais possa levar ao suicídio?

O que acontecia antes era que os pais matavam e depois se suicidavam, ou então se suicidavam para não matar. O risco de suicídio sempre existiu, a maioria das mortes que acontece na aldeia é  por suicídio. Vários pais ou irmãos que praticaram o infanticídio depois se suicidaram. A idéia que se tem é que é uma cultura as pessoas convivem super bem com isso e estão felizes matando crianças, não é isso que acontece. Matam por falta de opção, informação ou por pressão social.

A pressão social mudou?

A pressão social está diminuindo. Por exemplo, no caso das duas meninas, os pais não mataram e a comunidade parece que apoiou essa decisão.

E as acusações de que os missionários influenciam na cultura indígena?

Existe um engano no pensamento antropológico, que diz que o respeito pela diferença, o direito de ser diferente, está acima de qualquer outro direito. Entendo que todo ser humano tem uma lista de direitos, na declaração universal dos direitos humanos existe o direito a diferença cultural, mas existe um que está acima deste, que é o direito à vida. Então, o direito à vida vem em primeiro lugar. Como garantir o direito à vida se as pessoas estão mortas? Existe uma hierarquia natural dos direitos. Respeitamos muito a cultura. Quando estamos com os índios, andamos como eles, falamos a língua, participamos das festas, estudamos a cultura a fundo. É um respeito muito grande pela cultura.

Não levamos coisas de cultura material e nem da religião. Estamos lá como testemunhas de Jesus, tentando viver o amor de Jesus, mas não levamos forma de igreja. Você vai lá, 20 anos depois do inicio do trabalho, e não encontra igreja evangélica, nem índio convertido. Vivemos Jesus e testemunhamos sem a intenção de mudar a religião deles. Acreditamos que existem valores maiores do que os valores da cultura, que os índios têm direito a ter acesso aos bens da sociedade nacional. Se toda criança no território nacional conta com a proteção do estatuto da criança e do adolescente,  por que a criança indígena não vai contar com essa proteção? Quer dizer que não é crime no Brasil matar uma criança ou torturar uma criança indígena?  É isso que temos questionado. Quem é contra são pessoas que entendem que o respeito à diferença está acima de qualquer direito. Pensamos que não, o direito à vida está acima do direito da diferença.

E como surgiu as duas reportagens para o Fantástico sobre as crianças doentes?

Não sei, nós não procuramos o Fantástico.

A Jocum não procurou o Fantástico?

Não procurou. Parece que foi uma carta que enviei para uma amiga contando sobre o drama das famílias indígenas em São Paulo. Na carta eu dizia que o hospital não queria fazer a cirurgia porque surgiu um denúncia que supostamente estaríamos interferindo na cultura indígena. Como ela é professora em uma universidade, acabou lendo em classe para discutir o assunto com os alunos. Eu acho que foi assim que chegou na Globo, a informação nós temos é que foi uma estudante de Ribeirão Preto que enviou para a emissora. Então o Fantástico nos procurou e disse que queria fazer uma matéria. Ao mesmo tempo procurou a Funasa, procurou todo mundo. Ficamos em dúvida se devíamos dar a entrevista, não queríamos expor os índios. E a gente sabe também que a mídia nem sempre é muito honesta. O receio é que as informações fossem distorcidas. Só que a gente percebeu que o Fantástico já ia fazer a matéria de qualquer maneira. Então eu conversei com o bispo Adolfo (Adolfo Evaristo de Souza, bispo Metodista no Campo Missionário da Amazônia - CMA) e perguntei a opinião dele. Ele aconselhou dar a entrevista."Se não der  pode ser pior, eles vão fazer uso da informação sem ouvir a opinião de vocês" - disse o Bispo.  A produção do programa disse para nós que o objetivo da reportagem era divulgar o drama das crianças. " O que a gente quer é que todo mundo veja  o que está acontecendo com as crianças, e que haja uma pressão da opinião pública para a cirurgia sair" - explicaram.

Isso foi na primeira reportagem?

Exatamente. Depois da reportagem todo mundo se apressou para que a cirurgia saísse. Funai, Funasa, todos se apressaram e a cirurgia saiu.

E a segunda reportagem, teve um novo contato do programa ou não?

Não, a moça que fez a reportagem tirou férias. Provavelmente houve alguma reação contraria a matéria, alguém não gostou. Pegaram a primeira matéria e fizeram uma montagem na segunda reportagem. No dia que passou a segunda reportagem eu estava no avião, só pude ver depois. Mas eles fizeram uma montagem, pegaram um monte de informação fora de contexto. Pegaram um texto meu e tiram a seguinte frase; Percebia a maneira maravilhosa de como Deus tinha preparado os Suruwaha para conhecer o evangelho. Então eles colocaram essa frase na reportagem para provar que estávamos evangelizando.

E você queria dizer no texto ?

Aquele é um texto para crentes, é um trabalho missiológico mostrando justamente que não há necessidade de catequização, não há necessidade de você impor uma religião e uma forma de  igreja porque Deus se manifesta de maneiras diferentes em cada povo. Era isso, eu vi e entendia como Deus tinha preparado o povo Suruwaha.

Depois da matéria teve alguma denuncia no ministério público ?

Não mudou nada. A matéria não tem valor nenhum jurídico. Na segunda-feira, logo após a segunda matéria que passou no Fantástico, eu participei de uma reunião com representantes da Funai, Funasa, Ministério Público para tratar de outro assunto. Era uma reunião que já estava marcada. Aí surgiu o comentário sobre a reportagem. Eu não assisti porque estava no avião.

Você ficou preocupada com o que poderia acontecer com os missionários depois da reportagem?

Houve uma preocupação. Por exemplo, uma pessoa ligada a Funai fez ameaças dizendo que iria expulsar os missionários,  só que nada disso aconteceu.

Vocês tinham autorização para a retirada?

Sim, tenho o documento aqui. A autorização veio da Funai.

Pelo o que você conta, a iniciativa de tirar os índios partiu dos organismo públicos ?

Sim, a família da índia saiu da aldeia no helicóptero da Funasa. Durante a retirada da primeira família, não havia nenhum missionário na aldeia. Foi a Funasa que colocou os colocou no helicóptero e levou para a cidade de Lavras. Isso é fácil de provar, temos toda a documentação. Creio que, com medo da repercussão negativa, a Funai voltou atrás após a primeira entrevista.

Como estão as famílias que vieram para São Paulo? Já voltaram para a aldeia ?

Não, elas ainda estão em São Paulo. A gente combinou com a Funasa que depois da cirurgia eles ficaram na Casa de Saúde Indígena (localizada no bairro da Aclimação, São Paulo ) por causa do pós-operatório.

E depois da reportagem, como ficou a relação dos missionários com a Funasa ?

Está normal, como os Suruwaha não falam português, nós somos os interpretes na Casa de Saúde Indígena, aqui em São Paulo. Não é uma coisa que queremos, ideal é que outras pessoas falem a língua deles, mas é o que está acontecendo no momento. Enviamos um carta para a procuradoria da Republica para que seja providenciado uma melhoria na comunicação para os índios.

Existe um previsão de quando as famílias voltarão ?

Para a menina que tem paralisia cerebral não existe previsão, o tratamento é demorado. Existindo um tratamento bom em Porto Velho, a família será transferida para a cidade. Agora, a família da garota com genitália ambígua deve voltar em breve para a aldeia, a menina já foi submetida a cirurgia e está tudo bem.

E quando você volta para a aldeia indígena ?

Só quando resolver a questão do índios aqui em São Paulo. Como os Suruwaha não falam português, ficaremos na cidade para ajudar.


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