Publicado por José Geraldo Magalhães em Geral - 20/09/2013

pentecostes bispo josué lazier

João 17.21

"Para que sejam um"

A Igreja busca pela unidade para atender ao apelo de Cristo na oração sacerdotal. Nela, Jesus pede que os discípulos sejam um (João 17.21), como Ele e o Pai o são. Pedro, João, Tiago, André e outros eram pessoas diferentes, com reações diferentes, compreensão acerca das palavras de Jesus de forma diferenciada, mas experimentaram a unidade entre si porque foram transformados por Jesus Cristo. Encontramos o exemplo de Pedro. Ele que costumava atropelar as pessoas, agir de maneira rude e violenta, demonstrar certa arrogância, terminou a vida enviando saudações carinhosas e ósculo santo para seus seguidores (I Pe 4.14). Pedro aprendeu o "segredo de se esvaziar dos preconceitos e paradigmas, não ter medo do novo, não ter receio de explorar o desconhecido. Entendeu que devia se colocar como uma criança que se expõe singelamente diante do mundo que a cerca. Quem não consegue se esvaziar das suas verdades não consegue abrir as possibilidades dos pensamentos".[1]

Outro exemplo de pessoa transformada é João. A afetividade foi uma das marcas na vida e ministério de João. Invariavelmente seus escritos mencionam esta dimensão. Ele soube captar este aspecto na vida de Jesus e desenvolvê-lo com seus discípulos. "Seus escritos exalam a mais bela afetividade. Mesmo no livro de Apocalipse é possível perceber, entre guerras e julgamentos, o perfume mais excelente da emoção. Nesse enigmático livro, Jesus é citado mais de vinte vezes, não como um general ou juiz, mas como cordeiro de Deus. João nunca se esqueceu das seis dramáticas horas da crucificação".[2] João permaneceu aos pés da cruz, e lá soube entender a linguagem silenciosa de Jesus e foi nutrido na dimensão da oração sacerdotal. Em outras palavras, Jesus reprogramou a ambição dos discípulos. A ânsia pelo poder e pela proeminência foi substituída pelo ser servo de todos. Para ser o maior, o seguidor do mestre dos mestres deveria se transformar no menor e servir aos outros (Mc 10.43-45).

Movimento homogêneo

Pensar na unidade dos cristãos nos dias de hoje parece ser uma grande utopia. Os movimentos homogênicos que agem dentro das Igrejas preconizam uma unidade eclesial, intra-muros, nos limites da denominação ou da igreja local, entre os grupos que professam o mesmo pensamento ou manifestam a mesma experiência, e o fazem, muitas fazem, sem afetividade e sem respeito para com o sentimento alheio e, desta forma, não conseguem alcançar a amplitude da oração sacerdotal. Esta unidade, resultado de homogeneidade, não reflete a unidade apregoada por Jesus Cristo. Assim, nos diversos movimentos em busca da unidade encontramos aspectos que tendem a minimizar o tema.

O fundamentalismo

Encontramos, como primeiro exemplo, o fundamentalismo que pode ser definido como um "movimento social religioso no seio do protestantismo, que tem a sua gênese num contexto de acentuadas contradições sociais, por conseguinte, de falta de plausibilidade e de relativismo de valores; tem no líder e na rede de fiéis seus termos estruturais básicos, cujas relações são de autoritarismo e totalitarismo, predominando a ênfase carismática, e de enérgico antagonismo contra correntes divergentes - inimigo demonizado; e desempenha uma função social de compensação, mediante novos vínculos interpessoais e reforço da identidade, e, ao mesmo tempo, de legitimação de certa ordem social vigente".[3]O fundamentalismo, como outros movimentos sociais e religiosos, tem a marca ideológica, pois está a serviço de uma crença ou de uma determinada membresia que professa seus dogmas.Neste sentido, o fundamentalismo é doutrinário e intolerante com outras crenças ou grupos religiosos. Ele promove a homogeneidade entre os membros da Igreja ou parte dos mesmos, o que, por si só, já é uma negação da diversidade e da mutualidade que caracteriza o Corpo de Cristo (I Co 12.1-11).

Outro aspecto a ser destacado é que o fundamentalismo estabelece suas doutrinas e sua teologia a partir de estruturas dicotômicas, ou seja, bem x mal, Deus x demônio, luz x trevas, etc. Promove uma ortodoxia mínima absolutamente exigente em termos de observância e de obediência, sem que haja uma reflexão mais apurada e uma amplitude no que diz respeito ao livre arbítrio das pessoas professarem sua fé, até como conseqüência da característica de cada uma. Esta tendência homogênea cria estereótipos e comportamentos paranóicos na vida ministerial e eclesial. O pensar é refutado como atividade pouco espiritual. E quando o pensamento ou a ação não segue os dogmas da "homogeneidade" a rejeição, a discriminação e a disciplina são praticadas em nome desta "unidade", o que, na verdade, não passa de uma uniformidade.

O relativismo

Como segundo exemplo pode ser citado o relativismo. Hoje vivemos num período onde há muitos movimentos religiosos que oferecem variados tipos de produtos, serviços e ofertas diversas, para chegar até os diferentes grupos da nossa sociedade. Com o movimento da globalização e o neoliberalismo no mercado os valores sociais, éticos e cristãos são questionados e aviltados, sendo substituídos por outros conceitos advindos deste movimento. Esta tendência cria a insegurança entre as pessoas e promove o relativismo das coisas. Tudo, ou quase tudo, passa a ser relativo. Os compromissos assumidos, votos feitos, responsabilidades éticas e morais, comprometimentos com a identidade e confessionalidade da denominação, entre outros aspectos, passam a ter um valor relativo. Neste sentido, minimiza-se o que deveria ser absolutizado.

Com a relativização das coisas, sobra muito pouco espaço de reflexão e de debate. Enquanto a máxima wesleyana ensina a "pensar e deixar pensar", este movimento relativista e hegemônico pratica apenas a primeira parte, ou seja, pensa e não deixa pensar, mas cujo pensar reproduz discursos ensaiados e que estão a serviço dos que assumem uma liderança calcada na homogeneidade e no relativismo.

Desunião

Há que se citar também o pouco interesse que pode haver num ambiente de homogeneidade de que a unidade, enquanto resultado da mutualidade e da diversidade vivida e respeitada, seja, de fato, uma vivência e um testemunho evangelizador e sinalizador da presença do Reino de Deus. Os movimentos a partir disto levam em direção contrária à unidade que se busca e promove o confronto com idéias e pessoas que pensam e são diferentes dos estereótipos hegemônicos. A tendência, num ambiente assim, é de descarte, de intolerância, de deboche e de intimidação.

"Não sabem o que fazem"

Na busca pela unidade, se os movimentos fundamentalistas da homogeneidade, da hegemonia de um grupo ou tendência e da relativização das coisas continuam imperando, a Igreja acabará amargando maiores rachaduras, machucaduras, escândalos, messianismos, falta de ética, fingimentos, dissimulações e muita pouca missão ou missão distorcida. A oração sacerdotal de Jesus Cristo pode virar apenas um capítulo no Evangelho de João e o brado de Jesus na Cruz do Calvário é dirigido a nós hoje: "Senhor, perdoa-lhes, pois não sabem o que fazem" (Lc 23.34). Percorramos os caminhos da oração sacerdotal de Jesus, pois assim em algum ponto todos se encontrarão para celebrar a unidade ou para prestar contas do que foi feito em nome de Deus e do que deixou de ser feito.

"Para que o mundo creia"

Para motivar os discípulos a seguirem por este caminho Jesus "vendeu" sonhos. O principal era o Reino de Deus. Para falar dele usou a expressão Ano Aceitável do Senhor, onde haveria libertação aos cativos, visão aos cegos e liberdade aos oprimidos (Lc 4.17-19). Valorizou a vida. Focou a vida para ser plena e abundante. Despertou sentimentos, valorizou-os e ensinou os segredos do coração. Ensinou os discípulos a ser gente, a aceitarem a fragilidade da vida e a valorizarem a si mesmos e uns aos outros. "Ele queria libertar os cativos e os oprimidos. Também queria libertar os cegos, não apenas os cegos cujos olhos não vêem, mas cujos corações não enxergam. Os cegos que têm medo de confrontar-se com suas limitações, que não conseguem questionar qual é o seu real sentido de vida. Os cegos que são especialistas em julgar e condenar os outros, mas que são incapazes de olhar para as suas próprias fragilidades".[4] Que o Senhor Jesus nos dê a verdadeira motivação para sermos seus seguidores e sejamos um como Ele e o Pai o são, para que o mundo creia que Ele nos enviou.

Bispo Josué Adam Lazier

Maio 2007



[1] Cury, Augusto. O Mestre Inesquecível. São Paulo. Academia de Inteligência. 2003. Pg. 174.

[2] Cury, Augusto. O Mestre Inesquecível. São Paulo. Academia de Inteligência. 2003. Pg. 199.

[3] Oro, Pedro Ivo. O outro é o Demônio - uma análise sociológica do fundamentalismo. São Paulo. Editora Paulus. 1996. Pg. 167.

[4] Cury, Augusto. O Mestre Inesquecível. São Paulo. Academia de Inteligência. 2003. Pg. 93.


Posts relacionados

Geral, por José Geraldo Magalhães

Faleceu na tarde desse domingo, 24, Fábia Matos, filha do pastor Djalma e Dete Lima - Conselheiros Nacionais dos Juvenis

"Preciosa é a vista do Senhor a morte dos seus santos" (Sl 116.15).  Com pesar comunicamos o falecimento de Fábia Matos, 27 anos, filha do pastor Djalma e Dete Lima - Conselheiros Nacionais dos Juvenis.   A jovem infartou a caminho do hospital nesse domingo, 24, após ter passado mau. Ela estava sendo levada para atendimento médico pelo pastor Helio de Oliveira que prestou os primeiros socorros, mas não resistiu chegando na unidade de atendimento sem vida. O Colégio Episcopal se solidariza a todos os familiares e amigos/as nesse tempo de luto, dor e separação; na certeza de que o consolo e amparo divino está com toda a família.   Ainda não temos informações sobre local e horário para o sepultamento. Informaremos assim que possível.

Geral, por José Geraldo Magalhães

Geral, por José Geraldo Magalhães

Geral, por José Geraldo Magalhães

Geral, por José Geraldo Magalhães