Pronunciamento do Colégio Episcopal – renúncia do Presbítero Fábio Cosme

Eu vi os seus caminhos, mas eu o curarei

Isaías 57.14–19

“E dir-se-á: Preparai, preparai o caminho; limpai o atalho; removei todo obstáculo do caminho do meu povo. Porque assim diz o Alto e Sublime que habita a eternidade e cujo nome é Santo: Habito no alto e santo lugar, mas também com o contrito e abatido de espírito, para vivificar o espírito dos abatidos e para vivificar o coração dos contritos. […] Eu vi os seus caminhos; contudo, eu o sararei, guiarei e lhe darei consolações, sim, a ele e a seus enlutados; Crio o fruto dos lábios: Paz, paz ao que está longe e ao que está perto, diz o Senhor, e eu o sararei.”

 

Como bispos e bispa da Igreja Metodista, trazemos esta reflexão pastoral diante da notícia que afligiu nossa comunidade: a renúncia do presbítero Fábio Cosme à função de bispo presidente da Nona Região Eclesiástica, que lhe foi concedida pelo Concílio Geral.

É preciso afirmar com clareza: a decisão foi tomada totalmente por iniciativa pessoal do bispo, sem qualquer diálogo ou discussão prévia com o Colégio Episcopal, e é de sua inteira vontade e responsabilidade. Ele mesmo o reconhece em seu texto, atribuindo sua decisão a uma direção divina recebida. Não existe nenhuma situação institucional, nacional ou regional, que a tenha motivado. A Igreja Metodista segue enfrentando os desafios que ele já conhecia desde que se colocou para servir no Episcopado. Qualquer narrativa que sugira outra direção é sumariamente rejeitada por este Colegiado.

Mas não podemos pensar nossas realidades sem sermos iluminados pela Palavra de Deus. O texto de Isaías 57 não nasceu num dia tranquilo. Nasceu no exílio, numa comunidade que havia perdido o templo, o território e a estrutura que achava ser a própria identidade. E no meio dessa ruptura, Deus não fala sobre o problema, mas sobre o que Ele vai fazer, apesar do problema.

O luto real: nomeando o que a liderança carrega

Precisamos ser honestos: quando uma liderança que caminhou e pregou junto decide sair numa ação de rompimento repentino, o que fica não é apenas um problema institucional. O que fica é dor. Na Nona Região, há um sentimento de orfandade, de desvalorização e de abandono. Os mesmos sentimentos habitam toda a liderança nacional neste momento.

Não há vergonha em nomear esse luto. A vergonha estaria em fingir que ele não existe. Por isso, expressamos explicitamente nossa dor, nossa tristeza e nosso espanto pela ruptura que vivemos. Choramos com a Nona Região a perda de seu bispo e todos os desdobramentos que isso representa. Mas o profeta bíblico nos consola, pois coloca os enlutados no centro da promessa: “Eu darei consolações a ele e a seus enlutados.” Deus fala conosco inclusive em situações ruins, como o luto.

“Eu vi os seus caminhos”: Deus não está surpreso

O versículo 18 começa com um diagnóstico divino: “Eu vi os seus caminhos”. Em hebraico, esse ver não é observação passiva. Deus viu o processo inteiro, as escolhas ao longo do tempo, os sinais e os caminhos que levaram até aqui. Ele não foi enganado. Muito antes de qualquer carta ser publicada, Deus já via.

E a conjunção adversativa que se segue é teologicamente explosiva: “Eu vi os seus caminhos, mas eu o curarei.” Deus não diz: “Por isso os destruirei.” O que move a decisão divina é curar. Crer nisso não é ingenuidade. É graça soberana. E é também uma palavra para nós: se Deus age com essa clareza de visão e essa amplitude de graça, nossa resposta não pode ser menor do que isso.

O Shalom: mais do que ausência de conflito

A palavra do versículo 19 não é apenas “paz” no sentido de ausência de guerra. É shalom: um estado de integridade onde todas as partes de uma realidade estão no lugar certo, funcionando em harmonia. Completude. Plenitude. Quando o rebanho está cuidado, quando o pastor ou a pastora está firme, quando a estrutura serve à missão e não o contrário.

Shalom não é a ausência do problema. É a presença de Deus tão densa e operante no meio do problema que este não consegue definir a realidade. É a promessa abrange todos: “Paz ao que está longe e ao que está perto.” Para quem está confuso, para a liderança que está com o telefone tocando sem parar. O Shalom que Deus cria alcança a todos.

“Preparai o caminho”: a missão de quem fica

Antes de falar sobre cura, o texto convoca: “Preparai, preparai o caminho; limpai o atalho; removei todo obstáculo do caminho do meu povo.” Deus vai curar, mas temos um papel: preparar o terreno para que a cura aconteça. Essa preparação começa no que é dito, no como se fala, na qualidade da presença que a liderança oferece ao povo.

“Crio o fruto dos lábios”, diz Deus. O shalom vem pelas palavras que a liderança pronuncia. Se ela cede ao discurso polarizador e à ironia que afaga o ego, mas fere o rebanho, não está produzindo shalom. Se, por outro lado, se apresenta no meio do caos com uma paz que não é ingenuidade, mas fé, com uma firmeza que não é rigidez, mas discernimento, então está construindo o caminho do versículo 14: está removendo obstáculos. Buscaremos esse caminho, trazendo transparência ao coração da Igreja.

Há uma tentação real em momentos de ruptura: usar a crise para ajustar contas, provar quem tem autoridade, nomear o caos. Mas Isaías 57 vai na direção oposta. Deus, que tem todo direito de destruir, que viu os caminhos tortos, escolhe sarar, guiar e consolar. Três verbos, três dimensões: a ferida, a desorientação e a dor emocional. O fruto que nossos lábios precisam produzir é esse shalom que só vem de uma liderança enraizada o suficiente em Deus para não ser movida pelo vento que está soprando.

Encaminhamentos do Colégio Episcopal

Reiteramos: a decisão do bispo Fábio Cosme de desligar-se da função episcopal e entregar suas credenciais como presbítero é de cunho totalmente pessoal. Não há realidade externa ao colega que a justifique.

Como resposta imediata, redistribuímos as funções exercidas pelo antigo bispo ao Revmo. Bruno Roberto, que supervisionará a Nona Região Eclesiástica. Designamos também a presbítera Revda. Luciana do Rego como presbítera assistente para a Nona Região, com atribuições, deveres e responsabilidades definidos em Ato próprio do Colégio Episcopal.

Expressamos nossa dor e lamento por este momento de ruptura. Como liderança, nos colocamos em posição de quebrantamento diante de Deus e da Igreja por esta quebra da unidade. Assumimos nossa responsabilidade pela busca de caminhos cada vez melhores de exercício do ministério episcopal e da defesa da unidade do corpo de Cristo.

Pedimos suas orações pela Nona Região Eclesiástica e por toda a Igreja Metodista. Sabemos que a Igreja não é nossa, nem de bispos e bispas, nem de pastores e pastoras, mas de Cristo. Ela subsistirá enquanto o Senhor a quiser, até sua segunda vinda.

Entregando-nos ao Deus que sara, guia e consola, rogamos as orações de todos também a nosso favor, para que fielmente cumpramos o que a Igreja nos designou e para o que Deus nos escolheu, por graça e seu favor somente.

 

Colégio Episcopal da Igreja Metodista

 

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