Publicado por José Geraldo Magalhães em Geral - 20/12/2010

Um Natal de esperança

Ao chegar o mês de dezembro muitas coisas mudam, por exemplo, as lojas mudam a decoração, o comportamento das pessoas é alterado para um clima de harmonia e festa, e por aí vai. Dizem que as pessoas se deixam envolver pelo espírito do natal e, consequentemente, agem e sentem de modo diferente, mais fraterno e humano. Essas mudanças são tão marcantes e visíveis que já no início do século 20 o escritor Machado de Assis chegou a exclamar: "Mudaria o Natal ou mudei eu?" em seu poema Sonetos de Natal publicado em Poesias Completas em 1901. A grande questão é o porquê as pessoas comportam assim somente nessa época do ano? Parece que descobrem mais beleza na vida e vivem sorrindo para os outros e para suas próprias vidas, como se estivessem na vida a passeio. Não seria uma hipocrisia? Será que há mais esperança para as pessoas nessa ocasião? Afinal, o que muda, de fato, no dia 25 de dezembro?


Jesus, o nazareno
Para responder as perguntas acima, o primeiro fato que há de se considerar é o local e a data do dia 25 de dezembro para se comemorar o natal. Será que Jesus realmente nasceu dia 25 e em Belém? Os relatos bíblicos de Mateus e Lucas que trazem a infância de Jesus não informam a data do nascimento do Messias, mas nos dizem que a cidade que Jesus nasceu é Belém. Essa não é a versão do evangelista Marcos que aponta ser em Nazaré. O fato é que tanto Mateus como Lucas, na fase adulta de Jesus o chamam de “Jesus de Nazaré”, por exemplo, o fato narrado por Mateus quando Pedro nega a Jesus, ele conta que uma criada estava no Pátio e ao ver Pedro afirma: “Tu estava com Jesus, o Galileu (...) e saindo para o vestíbulo, outra criada o viu e disse aos que ali estavam: Este também estava com Jesus, o nazareno” (Mt 26.69-71). Também percebemos o povo gritando em sua entrada triunfal em Jerusalém: “Este é Jesus, o profeta de Nazaré da Galileia” (Mt 21.11).

O mesmo acontece na narração lucana onde é mencionado que Jesus nasceu em Nazaré, embora o evangelista Lucas cite no capítulo 4 verso 16 que ele fora criado em Nazaré, sempre o chama de “Jesus de Nazaré”, por exemplo, ao realizar uma cura em Cafarnaum (Lc 4.34), ao curar o cego de Jericó (Lc 18.37), no caminho de Emaús no capítulo 24. No livro de Atos dos Apóstolos, também de autoria do evangelista Lucas, quando se refere a Jesus, o autor o trata da mesma forma (At 2.22; 3.6; 4.10; 10.38; 22.8).

Jesus, o belemita
Por que o local do nascimento de Jesus é considerado no mundo todo como sendo em Belém? O sacerdote e biblista argentino, Ariel Álvarez Valdéz, da Universidade Católica de Santiago de Esterro, Argentina, defende que isso é um fato histórico que precisa ser considerado, ou seja, os dois evangelistas, Mateus e Lucas, “quiseram afirmar que Jesus era o famoso Messias esperado pelo povo de Israel”, por essa razão eles citam que o nascimento de Jesus se deu em Belém, além do mais, segundo o biblista “o povo precisava entender que era necessário relatar a origem de Jesus levando em consideração a mentalidade judia, neste caso o futuro Messias deveria ser um descendente da família de Daví. Por volta do ano 500 a.C., apareceu em Jerusalém um profeta anônimo dizendo que o Messias viria de Belém. Essa profecia se encontra hoje no livro de Miqueias” (5.1-3), disse.

Se levarmos em conta a profecia de Natan (2Sm 7.4-16), Álvarez tem razão, pois a profecia diz que Deus havia garantido a Davi que nunca iria faltar um descendente seu como sucessor no trono de Jerusalém. O profeta Miqueias, segundo Álvarez, quis dizer que “Deus não olhava com bons olhos a cidade de Jerusalém porque era uma cidade que havia prostituído tantos reis com o poder e não era um bom lugar para nascer o Messias Ungido, e Davi, o rei mais humilde que houve em Israel, havia nascido em Belém. Portanto, se os judeus quisessem um novo rei deveriam preparar o ambiente como Belém”. Álvarez acrescenta ainda que a profecia “não pretendia fixar um lugar geográfico para o nascimento do sucessor do rei, o Messias Ungido, mas era uma proposta para aos governantes de voltarem à humildade e sensibilidade de suas origens. Ela era uma advertência do que Deus queria para os reis de Israel”.

Como surgiu o dia 25 de dezembro?

Para os cristãos, o local onde nasceu Jesus é indiferente, pode ser em Belém ou Nazaré. O que importa, de fato, é que Jesus é o Messias. O que dizer, então, do dia 25 de dezembro? Pois os evangelhos não mencionam a data exata do nascimento de Jesus. O pastor metodista, Edson Cortásio Sardinha, em matéria publicada no Jornal Avante, afirma que “a data do dia 25 de dezembro foi fixada pelos pagãos para celebrar o nascimento do sol Natalis solis invicti. Os pagãos só começaram a celebrar essa data no ano 274 d.C. Nesse período, a igreja estava passando pelos seus últimos e terríveis dias de perseguição. O paganismo estava ainda forte, e esta foi uma estratégia para apagar as raízes do Cristianismo e formar raízes religiosas nos pagãos”.

No ano 336, a Igreja de Roma assimilou essa festividade pagã como data do nascimento de Jesus Cristo, prática essa que começou a ser difundida a partir de Roma para as demais igrejas cristãs. Finalmente, em 440 d.C., o dia 25 de dezembro foi oficialmente estabelecido como data do nascimento de Jesus, o que, até hoje, é aceito por toda cristandade.

O que muda para as pessoas nessa época do ano?
Começamos esse texto dizendo sobre as mudanças significativas na vida das pessoas nessa época do ano, aliás, parece que todo mundo fica calibrado pelo espírito natalino fazendo germinar algumas características humanas benéficas que, durante todo o ano estiveram arquivadas lá no fundo da personalidade de uma grande maioria das pessoas.
Quando chega o Natal, as pessoas começam a ser mais sensíveis, elas abrem seus corações, muitas vezes, cheios de mágoas, ódios e tristezas para dar lugar à solidariedade estendendo as mãos como um gesto acolhedor de bondade, paz, alegria, festa e comunhão.

Nota-se no mês de dezembro uma nova energia que paira no ar, um espírito de otimismo se preparando para celebrar o nascimento de Jesus, mesmo que a pessoa não foi à Igreja com freqüência durante o ano, mas ela está envolvida nessa magia celestial. Uma grande maioria das igrejas cristãs prepara seus corais para exibirem as vozes dos tenores, contrautos e baixos em diversas apresentações, dentro e fora das igrejas como uma forma de anunciar a chegada do esperado Messias.
Não há dúvida, há uma nova esperança nesse mês! O comércio por sua vez, aproveita a ocasião fazendo a inversão dos valores ao afirmar que um Natal feliz é aquele que você ganha e doa presentes. Como cristãos, não podemos cair nessa cilada do comércio e gastar, sem um planejamento, pois no início do ano as despesas aumentam, por exemplo, IPVA, material escolar, IPTU, matrículas entre outras, além de embutir na cabeça das crianças que no Natal elas têm que ganhar presente. E as crianças de baixa renda? Como ficam nessa época do ano?

Quem ganha com o Natal?
Várias campanhas surgem nessa época do ano para beneficiar crianças carentes, por exemplo, alguns Supermercados são postos de arrecadação de brinquedos usados, e instituições como a UNIMED em João Pessoa que arrecadou toneladas de alimentos desde 2004. A Campanha está em sua 11ª edição, e a ideia é mobilizar todos os anos clientes, funcionários e cooperados na arrecadação de alimentos para doar a famílias carentes da Grande João Pessoa. De acordo com o site da instituição, O Natal pela Vida é promovida pelo Comitê de Entidades no Combate à Fome Pela Vida (COEP) e pelo Sistema Correio de Comunicação, em parceria com a Unimed João Pessoa e demais entidades participantes.

A iniciativa, que já arrecadou mais de 3 mil toneladas de alimentos para este ano, faz parte das ações que buscam alcançar os oito Objetivos de Desenvolvimento do Milênio (ODM), estabelecidos pela Organização das Nações Unidas (ONU) e que devem ser atingidas por 191 países, inclusive o Brasil, até 2015.
Mais de 40 mil famílias espalhadas em 60 comunidades da Grande João Pessoa e de cidades do interior do Estado serão beneficiadas. A meta da cooperativa, para este ano, é de arrecadar 100 toneladas de alimentos, sendo 30 toneladas de fubá, 25 de açúcar, 20 de arroz, 15 de feijão e 10 de macarrão. A proposta de priorizar a arrecadação dos cinco tipos de alimentos é levar em conta não só a quantidade, mas o valor nutricional dos alimentos arrecadados para a Campanha Natal pela Vida. Esse é apenas um exemplo de instituições que fazem ações concretas para beneficiar famílias nessa época do ano.

Como contribuir?
Que tal começar a praticar agora mesmo, espalhando alegria, entusiasmo pela vida e felicidade para as pessoas? Um sorriso amigo, um abraço, um elogio, um carinho, algumas palavras cordiais ou de amor durante todo o ano não custam nada, você os tem dentro de si em fonte inesgotável! Existem outras formas de garantir um Natal feliz para as crianças, como por exemplo, o “adote uma criança” que pode ser desenvolvido com as crianças carentes de sua comunidade. Mas, não basta dar o presente, tem que dar amor, atenção, o importante é apresentar uma visão participativa, inclusiva e presencial no momento de entregar um presente, o casaco ou fazer uma refeição junto com as crianças; o retorno será sempre um sorriso dobrado.

Neste Natal, vamos produzir mais esperança. Isso é tudo que o povo precisa, apenas de esperança! O biblista, Dr. Milton Schwantes, professor da Faculdade de Teologia da Igreja Metodista e no programa de Pós Graduação em Ciências da Religião na mesma Universidade, diz em seu livro Sofrimento e esperança no exílio que “os moradores das periferias urbanas viraram imensos acampamentos. As pessoas foram ficando sem nada, a não ser a escravidão ou o salário. Os povos latino-americanos foram transformados em exilados em seus próprios países. Aqui são habitantes. Mas aqui não são cidadãos” (p. 9). No exílio havia esperança! Esses imensos acampamentos é que precisam ser alcançados por cada um de nós.

Termino essa reflexão desejando um Natal com muita paz e alegria e que este ano que se inicia, não seja apenas um começo de ano, mas uma nova história em sua igreja, na sua família, em seus projetos pessoais e, principalmente, permita que o espírito natalino te envolva todos os dias do ano com a solidariedade, amor e compaixão do próximo.

Boas festas!

Pr. José Magalhães

Veja também:
Rede Nacional de Mobilização Social  http://www.coepbrasil.org.br
Objetivos do Milênio http://www.objetivosdomilenio.org.br/
Organização das Nações Unidas Brasil http://www.onu-brasil.org.br/ 
Instituto de Responsabilidade Social de João Pessoa
http://www.unimedjp.com.br/unigente/noticia_detalhe.php?id=5769 
Site da Sede Nacional da Igreja Metodista www.metodista.org.br



Posts relacionados