Publicado por José Geraldo Magalhães em Geral | 15/02/2013 às 12:00:00


Missionária indigenista compartilha formação do Curso de Magistério do povo Tremembé


A indigenista e missionária Marly Schiavini de Castro, da Região Missionária do Nordeste - Remne compartilha a alegria de ver 36 professoras/es da Aldeia Tremembé, de Almofala, na costa norte do Ceará-MTS, se preparando para a Colação de Grau dos Formandos do Curso de Magistério Indígena Tremembé Superior-MTS. A formatura será no dia 6 de março.

A missionária atua junto ao povo de Tremembé há dez anos. Ela garante que a formação das professoras/es também é fruto missionário. "Temos a certeza de que esta vitória é fruto também da caminhada da Igreja junto a este povo. Creio que a presença de representante(s) da Igreja nesta solenidade seria motivo de orgulho e felicidade para o Povo Tremembé", ressalta a missionária.

Veja o convite para a Solenidade de Colação de Grau clicando AQUI!

 

Veja também entrevista concedida ao Expositor em 2008 abaixo:

Quando você começou a trabalhar junto aos povos indígenas?
Minha atuação junto aos povos indígenas começou a partir do contato com um grupo de solidariedade da Igreja Metodista em Aimorés, Minas Gerais , junto ao povo krenak, que habita a região do Vale do Rio Doce. Eu morava num município vizinho, Resplendor. Foi em 1988.  Hoje o grupo não existe mais.

Como era a atuação deste grupo?
Pelo início da década de 90, o trabalho baseava-se no apoio à luta pela terra. Em 1997, depois de duas décadas de demanda judicial, a terra foi retomada e o grupo aos poucos se dispersou.

Qual é a sua formação?
Sou professora e indigenista. Eu trabalhava em escola pública em Minas Gerais e, a partir de 1988, minha caminhada indigenista seguiu paralela.

A formação inicial em indigenismo eu obtive, por intermédio da Igreja, pela Operação Amazônia Nativa-OPAN- entidade que trabalha em parceria com o GTME, Grupo de Trabalho Missionário Evangélico. Boa vontade só não basta. A gente tem que procurar conhecer bem o que quer fazer para a concretização desse ideal. No curso da OPAN eu tive uma formação mais antropológica, necessária ao trabalho com indígenas. Depois, fiz um curso no GTME, que incluía também missiologia, complementando a formação da OPAN. Aprendemos a fazer missão a serviço e não apenas missão proselitista.

E como é possível fazer missão sem cair no proselitismo?
Colocando-se a serviço e atendendo às demandas e às prioridades da população assistida. As igrejas devem procurar meios de atender a essas necessidades.

E onde você está atuando no momento?
Junto ao povo Tremembé, de Almofala, na costa norte do Ceará. Trabalho lá desde 2003. É um grupo formado de cerca de 4.000 pessoas. Eles estão próximos à cidade e perderam sua língua original após o longo tempo de contato com a população branca. O tempo de contato dos povos indígenas do nordeste é o mais longo, pois foi no litoral nordestino que chegaram os primeiros colonizadores portugueses. Desde esses primeiros tempos eles sofrem os efeitos desse contato, mas conseguiram preservar alguns expressões culturais, como o torém, uma dança ritual coletiva, ligada ao contato com forças da natureza e as intervenções do pajé.

O pajé não é uma espécie de sacerdote da tribo? Não existe nenhum conflito na relação dele com a Igreja?
O pajé não é um sacerdote, ele não tem essa função. Ele e o cacique são vistos  na tribo como pessoas que têm uma maior capacidade de serviço à comunidade. Nesse aspecto, sua função se assemelha à do pastor, o que acaba sendo um elo de ligação com a comunidade, pois o pastor também é um servidor. A Igreja também está presente para prestar serviço. Pajé e cacique são pontos de contato com a Igreja.

E qual é a principal necessidade pela qual a Igreja trabalha a serviço do povo tremembé?
No momento a principal demanda é a reconquista da terra. Os Tremembé têm direito a uma área de 4.900 ha , e 80% dela está invadida por posseiros. Eles vivem em corredores desta terra. Vivem em parte da agricultura, em parte da pesca. O mais impressionante é que eles têm sua terra registrada em cartório desde tempos do Império.  Mas os posseiros foram se apoderando. De 1988 pra cá, a partir da Constituinte, os Tremembé se organizaram para requerer seus direitos e o processo ainda está tramitando.

Qual tem sido o papel da Igreja no sentido de atender a essa demanda?
A Igreja reforça a educação, o que é essencial para a causa indígena. Atua na formação de professores e dá assessoria a escolas. Eu dou aulas de informática para professores e alunos do ensino médio numa das escolas que atendem à comunidade. A Igreja também realiza ações junto ao poder público, apoiando os indígenas; e presta assessoria em gestão de projetos de geração de renda e segurança alimentar do Ministério do Meio Ambiente, assessorando na gestão de projetos de pesca, agricultura, produção de ovos, artesanato...  Um dos projetos que me toca mais é a casa comunitária de farinha. Antes, os Tremembé tinham que pagar ao posseiro para usar a casa de farinha (local onde produzem farinha de mandioca e goma). Agora, eles têm sua casa de farinha.

E qual tem sido a recepção deste trabalho realizado pela Igreja?
Bastante positiva. O projeto junto aos Tremembé existe desde 1997. Temos grande confiabilidade junto a eles e a outras populações indígenas.  Eles se sentem seguros pois sabem que nosso objetivo é desenvolver ações solidárias, não se tenta forçar uma adesão. Nossa compreensão é de que caminhando junto é que se dá a conhecer a visão cristã. Gosto do pensar no texto de Emaús. Jesus não disse aos discípulos quem era: ele caminhou lado a lado e se deu a conhecer na partilha do pão.

Como você concilia este trabalho com sua vida familiar?

Não é fácil. Deixei um filho em Brasília e duas filhas no Espírito Santo, todos adultos. A caçula tem 24 anos. Tenho ainda dois netos e uma vez ou duas por ano a família se reúne. No restante do tempo, falamos muito por telefone, Internet. Às vezes meus irmãos me visitam. Mas sempre acreditei que por onde a gente passa vai constituindo diferentes famílias. Hoje, os Tremembé são minha família no Ceará, e meus interlocutores. Fui para a área Tremembé disposta a passar seis  meses. No final do terceiro mês resolvi não ir embora. O povo Tremembé é muito amoroso, afetivo. É a família que qualquer um gostaria de ter. ( Como todos os povos indígenas) eles têm um cuidado especial com a criança e o idoso. Você não vê criança sofrendo violência, elas são prioridade. E os idosos são respeitadíssimos. Numa reunião da comunidade eles são sempre os últimos a falar. E ninguém contesta a decisão deles.

Qual foi o seu maior aprendizado neste tempo de convivência com os Tremembé?
O respeito ao ser humano, à natureza e a maneira de viver comunitariamente. Eu sempre tive poucos bens materiais na minha vida. Mas, quando cheguei na área Tremembé descobri que mesmo aquele pouco que eu tinha ainda era muito dispensável. Eu não precisava de tudo aquilo. Para ser feliz( e forte) basta estar em paz, consigo mesma, com as pessoas e, consequentemente, com Deus.

O que a Igreja pode fazer para colaborar com a missão entre os indígenas?

A oração é uma força poderosa. Ore pelo trabalho e procure conhecer melhor a causa indígena, para defendê-la onde você estiver. Se quiser, entre em contato comigo pelo e-mail marlyscastro@yahoo.com.br. O GTME também oferece Encontros de Iniciação à Questão Indígena, para os quais enviamos um palestrante especializado e material de divulgação. O contato pode ser feito pelo telefone (65) 3025-4419 ou e-mail gtme@terra.com.br.

 Suzel Tunes


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