Publicado por Sara de Paula em Geral, Pastoral Indigenista | 15/04/2016 às 16:40:01


Velhos Espíritos


Na próxima terça feira, dia 19 de abril, será comemorado o Dia Nacional dos Povos Indígenas, pois isso a igreja Metodista está publicando diariamente textos e materiais sugeridos ou produzidos pelos missionários da Pastoral Indigenista.
 
A missionária Marly Schiavini de Castro da REMNE, que atua na Aldeia Tremembé, sugeriu ontem a leitura do Mito Indígena chamado "A história da cobra bonita" ontem. Leia aqui
 
Ela também sugere o texto Velhos Espíritos, de Fernando Schiavini, que aborda o relacionamento de indígenas com povos europeus, e compartilha pontos de sua história e luta. 
 
 
VELHOS ESPÍRITOS
Fernando Schiavini de Castro- 1988
 
Tudo indica que os primeiros encontros dos “índios” com os europeus foram amistosos. Assim registra a história dos brancos, e não poucos líderes “indígenas”  de hoje criticam seus antepassados por essa hospitalidade. Mas como perceber tamanha iniquidade em seres humanos?
 
Tudo, tudo tão diferente das guerras com outras tribos, onde os combates se davam entre guerreiros de verdade e disputava-se, às vezes, a própria coragem de combater. Madeira. Eles querem madeira. Tomem a madeira, nós temos muito. Ouro! Levem o ouro, se vocês acham bonito, não fazemos nada com ele . Escravos, não!  O que está acontecendo? Onde estão os presentes, os sorrisos? E de onde chegam tantos brancos, tantos, tantos!
 
Nada mais a fazer. Resistir, brigar, correr, morrer – de tiro, de tuberculose, de sarampo, de tristeza – resistir, resistir – com o corpo, com os espíritos, com o canto, o maracá e os segredos dos antigos. Resistir com os olhos no infinito, deixar passar este vendaval, talvez apenas outro dilúvio, mas o Povo já resistiu.
 
Hoje como ontem. Continuam. Não param enquanto houver madeira e ouro, ouro, ouro – há tanto tempo tiram madeira e ouro.  Para onde levam tanta madeira e tanto ouro?  Ainda embarcam nos navios à vela? Ainda belos móveis, ricas igrejas? Dobrões? Sinos? Canhões?  Para onde retornarão vocês depois de levarem tanta madeira e tanto ouro?  Aos desertos, por certo, aos leitos secos dos rios.
Nós não percebemos, vocês pensam. Somos apenas crianças. Somos incapazes de sentir a terra seca, o ar que fica mais quente, os bichos mortos, os peixes à procura de água, sempre que vocês passam. Cinzas, mercúrio, latas, plástico, cancro, sífilis, bombas, religiões e a pretensão dos imortais. Mas que imortais! Vocês também morrem e também são enterrados.  Que destino persegue seus espíritos, ao ponto de se matarem a todos, matando tudo que há de vida na terra? 
 
Não podemos acreditar que o Deus de todos nós tenha prometido somente a vocês algo melhor do que viver aqui, onde Ele também tudo criou.  Não acreditamos que sejam capazes de perceber uma vida mais agradável do que viver entre as coisas que o Criador deixou nesta terra.
 
Mas a terra não está morta e nós também ainda não estamos mortos...

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