Publicado por José Geraldo Magalhães em Geral - 20/09/2013

Affonso Romano.

Um bate-papo com o escritor Affonso Romano de Sant´Anna

 

Vestígios

De algumas coisas não se têm mais vestígios:
utensílios
objetos
costumes
e sentimentos
que caíram em desuso.

De algumas coisas não se têm mais vestígios.

Por isto alguns se calam
outros colam os olhos vagos
no horizonte
enquanto alguns como arqueólogos
têm sido vistos
procurando
daquele tempo
ah! daquele tempo                       
algum vestígio.

Foi numa família metodista que nasceu o poeta Affonso Romano de Sant'Anna, no dia 27 de março de 1937, na cidade de Belo Horizonte, Minas Gerais. Sua irmã, Cláudia Romano de Sant´Anna, foi redatora do jornal Expositor Cristão entre os anos de 1972 a 1980. Na adolescência, a fé quase o levou ao ministério pastoral. Acabaria encontrando sua verdadeira vocação na literatura: formou-se bacharel em Letras Neolatinas na Universidade Federal de Minas Gerais e depois fez um doutorado sobre a obra de Carlos Drummond de Andrade, escritor que conheceu pessoalmente. "Ele, inclusive, me emprestou seus arquivos, que reunia cerca de 600 páginas", conta Affonso numa entrevista ao Jornal do Brasil. "Logo depois que retornei dos Estados Unidos, em 67, defendi a tese. Dia depois, recebi um telegrama dele, que dizia: ?você me desparafusou todo?. Este foi o melhor elogio que eu poderia ter recebido".

Afonso Romano também teve o privilégio da amizade de Clarice Lispector. Ele escreve no sitewww.claricelispector.com.br: "A meu convite ela foi várias vezes à PUC-RJ quando dirigi o Departamento de Letras e Artes. Tenho aqui as fotos dela assistindo a alguns dos desafiadores encontros nacionais de professores de literatura que organizamos nos anos 70. Lembro-me daquele em que Luiz Costa Lima e José Guilherme Merquior debatiam trocando hermetismos teóricos, quando Clarice, de repente, levantou-se e foi embora. Fiquei preocupado. Nélida a acompanhou. Telefonei-lhe depois. E ela: "Aquela discussão incompreensível foi me dando uma fome que cheguei em casa e comi um frango inteiro."

Escritor, professor e crítico literário, teve uma participação fundamental na "descoberta" do talento literário de Adélia Prado. Em 1973, ela lhe enviou os originais de seu primeiro livro, "Bagagem". Affonso os encaminhou a Drummond, que também se encantou com a beleza da poesia de Adélia. Ambos prestigiaram a sessão de autógrafos deste primeiro livro, lançado em 1976.

Afonso Romano de Sant´Anna sempre foi muito respeitado no mundo acadêmico, mas não se restringiu a ele. Por isso, muita gente que jamais entrou numa universidade já leu algum poema ou crônica deste escritor, sempre presente nas páginas dos jornais refletindo sobre os problemas da política, da sociedade, da vida. Afinal, como ele mesmo nos fala na entrevista que você lerá a seguir, o poeta está, historicamente, mesclado ao profeta.

1)      Uma das muitas biografias suas que existem na Internet afirma que você foi "criado para ser pastor" e, aos 17 anos, já pregava em várias cidades de Minas. È verdade isso? Você chegou a considerar a possibilidade de cursar Teologia?

É verdade. Éramos seis filhos. Tinha dois tios pastores: Rev. Affonso Romano e Rev. Lemos. Tio Affonso foi reitor da Faculdade de Teologia em Rudge Ramos. Cheguei a visitá-lo e à tia Marta lá, nos anos 50. N"O Granbery" fui um dos "puritanos"? como chamavam os rapazes que iam ser pastor, muitos vindos do interior. Preguei em Matias Barbosa, São João Nepomuceno, Barbacena, Cachoeirinha, Santos Dumont, etc. Depois de ter ocupado vários cargos nos movimentos juvenis e jovens, lá pelos 16 ou 17 anos descobri que minha verdadeira vocação era a poesia e a literatura. E fui em frente.

2)
    Existe algum texto poético na Bíblia que o inspire de maneira especial?
A Bíblia está em toda minha obra. O ritmo dos Salmos e dos Provérbios, as parábolas de Cristo, enfim, literariamente, a Bíblia é riquíssima, tem tragédia, drama, lirismo e ali o profeta e o poeta se misturam social e historicamente.

3)     E a formação metodista, de que maneira ela influenciou ou influencia sua formação e produção literária?
A força ética do metodismo ficou. Os princípios básicos permanecem. Em tudo o que faço ou escrevo isto se nota. Aliás, é falta de ética o que se nota hoje em nossa sociedade. O que Cristo trouxe, na verdade, foi uma nova relação ética, e a ética é que nos ensina os limites de nosso espaço em relação ao próximo.

4)      Como é seu relacionamento com a Igreja hoje?
Um relacionamento cordial. Continuo tendo vários amigos lá dentro, vários textos meus às vezes aparecem em programas da igreja. O tempo da juventude passado naqueles congressos e reuniões foi um tempo muito precioso e inesquecível.

5)
     Publicamos em nosso site, tempos atrás, um artigo seu no qual você criticava um curso de formação de pastores por correspondência (uma espécie de "kit pastor" a preços módicos...). Como você avalia o crescimento do movimento evangélico no país e sua inserção na sociedade?
É, a coisa mudou. E para pior. O que há por aí em certas denominações é puro negócio, balcão. Se Cristo entrasse em alguns templos que  se erguem por aí em nossas cidades teria que trazer de novo o chicote e clamar: "Oh! raça de fariseus e hipócritas!..."

6)
     O Prêmio Jabuti de 2006 pelo livro Vestígios é o mais recente que você ganhou?
Esse prêmio deu certa visibilidade ao livro.  Mas depois publiquei mais três- "O homem e sua sombra" (Ed. Alegoria), "A cegueira e o saber" (Ed. Rocco) e "Tempo de delicadeza"(Ed. LPM).

7)      No poema que dá título ao livro Vestígios você fala de "sentimentos que caíram em desuso". Que sentimentos, sonhos, ideais a Igreja poderia "cultivar"  no mundo?
Vivemos numa época em que palavras como "ética" e "caráter" quase chegam a ser palavrões, pois caíram em desuso, como certas roupas, utensílios e máquinas. No entanto, são instrumentos essenciais à vida pessoal e social. Com o fim, que já ocorreu, do século XX, temos que fazer uma avaliação de muita coisa: aquele foi um século importante, mas nos trouxe muitos equívocos. Temos que entrar no século XXI antes que ele acabe sem tomar conhecimento da gente.


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