Publicado por José Geraldo Magalhães em Geral - 14/02/2013

Artigo Uma reflexão sobre fé e folia

O carnaval é, seguramente, a maior festa popular brasileira. Talvez a maior do mundo, mas isso é difícil de mensurar.

O fato é que o carnaval faz culminar a cultura de cada parte do país numa festa só. Os carnavais do Rio, do Recife e da Bahia (para ficar em apenas três exemplos) acontecem, na verdade, o ano inteiro, numa forma reduzida, qual aperitivo para abrir o apetite.

As manifestações do samba, do maracatu e do axé ocorrem durante todo ano nas comunidades mais populares de cada região do país. (E não apenas aí, mas também em setores mais abastados da sociedade. Curiosamente, as culturas das bases ascendem socialmente, recebem um retoque burguês e se tornam mercadorias palatáveis aos salões mais exigentes!) Quando chega o carnaval, aquelas iguarias de final de semana se tornam o prato principal da festa e todas as atenções se voltam para as ruas e passarelas.

O carnaval – se disse muito sobre isso – é uma espécie de parênteses na vida do pedestre dia-a-dia. Uma pausa na rotina de trabalho; uma chance para brincar, dançar e inverter papéis. Homens se vestem como mulheres, pobres como ricos, escravos como reis! No carnaval, o impossível pode acontecer. São três ou quatro dias de fantasia e ilusão!

O que subjaz a festa, todavia, é a denúncia do estado atual das coisas. No carnaval, além de ser oportunidade para rir da vida, é possível também criticar os poderosos e fazer piada da indignidade a que tantos são submetidos. Pelo carnaval, os negros e os pobres, no Brasil, aprenderam a questionar e a reclamar seu espaço. E o fizeram pela via da brincadeira e da arte.

Interessante, para usar apenas o caso da samba, é que, além de animar a festa e embalar os foliões, a música é capaz de falar de si mesma. Quantos sambas há que não se cansam de refletir sobre o que é o samba; sobre a dor que há num samba de verdade; sobre os amores perdidos; sobre as injúrias da vida. Isso tudo, é claro, vez e outra, com um toque requintado de sorriso! Mescla de dor com humor.

Ninguém sabe a mágoa que trago no peito
Quem me vê sorrir desse jeito
Nem sequer sabe da minha solidão
É que meu samba me ajuda na vida
Minha dor vai passando, esquecida
Vou vivendo essa vida do jeito que ela me levar
Vamos falar de mulher, da morena e dinheiro
Do batuque do surdo e até do pandeiro
Mas não fale da vida, que você não sabe
O que eu já passei
Moço, aumenta esse samba que o verso não pára
Batuque mais forte, a tristeza se cala
Eu levo essa vida do jeito que ela me levar (Benito de Paula)

De outro turno, as igrejas evangélicas chegaram ao Brasil quando tudo isso alçava um novo patamar. Paralelamente à abolição da escravidão e da proclamação da República cresciam as recém chegadas igrejas do protestantismo de missão vindas dos Estados Unidos.

Enquanto negros deixavam as senzalas e subiam para os morros, as igrejas se dedicavam a educar setores médios das cidades e a acompanhar a rota do café e seus barões que aos poucos declinavam. Chegaram a fazer, aqui e ali, alguma ação assistencialista, é verdade.

As relações entre igreja evangélica e cultura brasileira, forçosamente, se deram pela via do confronto, da negação e da contrariedade. Tudo que, de alguma forma, representava a cultura brasileira mais genuína, ou estava ligado à igreja católica ou às manifestações religiosas e culturais afrodescendentes, quando não raro os dois juntos, era tido como pecaminoso pela igreja evangélica! Daí o enfrentamento.

Converter-se ao evangelho (evangélico, frise-se) era o mesmo (e ainda é) que rejeitar e abandonar as manifestações da cultura brasileira. Ser crente era o mesmo que deixar de ser brasileiro, num certo sentido.

Como não podia ser diferente, no carnaval esse confronto se mostrava mais radical do que nunca. O carnaval, sob a ótica evangélica, é a festa, por excelência, da carne e do pecado. Pular carnaval é diametralmente oposto ao ser do crente.
Por isso, no carnaval, crentes aprenderam a fazer retiros. Como não é possível coibir a festa, melhor então ir pra bem longe dela. Como diz o adágio popular, melhor prevenir que remediar! Vai que uma batucada reacende o coração de um folião recém-convertido? Melhor não arriscar.

Sei que eu não sou daqui, Sei vou morar no céu
Sei que Ele vivo está, Sei que vem me buscar
Sei vou morar com Deus, Esse mundo não tem nada pra mim
Sei Ele vive em mim, Eu vivo pro Senhor!

Recente reflexão publicada num jornal de grande circulação dá conta que as escolas de samba mais tradicionais do Rio de Janeiro sofrem com a falta de “baianas”. A ala mais tradicional está perdendo a batalha com as igrejas evangélicas. As mulheres estão abandonando as quadras e frequentando mais e mais as igrejas. Ou isso ou aquilo!

Mas, igualmente às folias carnavalescas, as liturgias evangélicas celebram uma espécie de crítica da história e suas agruras. Ser crente é saber-se “neste” mundo, mas não “deste” mundo. O culto, neste sentido, antecipa o céu e eleva o fiel ao paraíso esperado no futuro. O culto é, assim, uma experiência semelhante ao carnaval: uma espécie de faz-de-conta que nega o estado atual das coisas e, ao mesmo tempo, preconiza um mundo ideal.

Se, no carnaval, foliões invertem papéis e riem da vida mergulhando no samba e na brincadeira, crentes se retiram deste mundo e choram pelo pecado no qual ele está chafurdando. Apesar das aparentes diferenças, ambos vivem uma fantasia profética: esse não é o mundo que queremos!

Pena que evangélicos, mesmo passado mais de um século, ainda não tenham aprendido sobre as bases mais denunciatórias do carnaval. Pena, por outro lado, que pobres e ricos tenham deixado de lado a crítica que a festa faz e tenham se deixado levar pela fantasia que o álcool aparentemente promove.

Conclui-se que, quanto menos se sabe de onde vem, menos se saberá pra onde ir. A perda da consciência histórica causa graves danos aos indivíduos e à sociedade.
Quando se perde de vista a origem dos evangélicos, corre-se o risco de se perder também a dimensão protestante da fé. O mesmo ocorre quando se perde de vista a gênese do carnaval e suas raízes brasileiras avessas às oligarquias caducas.

Lamento, mas hoje somos menos evangélicos e, por incrível que pareça, menos brasileiros também!


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