Publicado por José Geraldo Magalhães em Geral - 13/09/2013

Combate ao Racismo CMI

Metodista brasileiro representa continente americano em encontro internacional

Evento realizado na Holanda celebrou os 40 anos do Programa de Combate ao Racismo do Conselho Mundial de Igrejas. Reverendo Antônio Olímpio de Sant´Ana conta como foi esse evento:

O PCR-Programa de Combate ao Racismo do CMI - comemorou os seus 40 anos realizando um encontro internacional no vilarejo de DORN, Utrecht-Holanda, e convidou representantes de todos os continentes para ajudarem no repensar da Missão da Igreja nesta espinhosa área.

 
Reverendo Antônio e a rainha Beatriz

Tive a honra de ser o único convidado para compartilhar no encontro como se deu e está se dando o avanço na luta contra o racismo no Brasil.
Foram selecionados  um representante de cada continente para falar durante o encontro e  no culto de encerramento, que teve a presença da Rainha Beatriz.
Após o cerimônia de encerramento a Rainha gentilmente dialogou com vários participantes e eu tive a honra de compartilhar com ela as atividades  desenvolvidas atualmente no Brasil, com destaque para o grande número de crianças e familiares sem documentos, transformando estas pessoas cidadãos e cidadàs INVISÍVEIS.


Ela achou interessante o avanço do movimento inter-fé (Movimento Inter-religioso) que está adquirindo consciência de que  se torna necessária a participação de todos os segmentos religiosos para lutar  e SUPERAR  a violência  e a corrupção que estão num processo assustador de crescimento no Brasil. Curiosamente disse que achava que o Brasil parecia vários países dentro de um só. Elogiou muito o seu amigo pessoal, enfatizou ela, o Cardeal Dom Paulo Evaristo Arns.

Reverendo Antônio Olímpio de Sant´Ana


VEJA ABAIXO PRONUNCIAMENTO DO CMI:

Derrubem os Muros! Chega de Racismo e Discriminação Racial!

Mensagem da Conferência do Conselho Mundial de Igrejas
"Igrejas reagindo a desafios de racismo e

semelhantes formas de discriminação e exclusão"

Organizada para comemorar o 40o. aniversário do Programa de Combate ao Racismo em cooperação com o Conselho de Igrejas da Holanda, ICCO, a Associação de Igrejas Migrantes (SKIN), KerkinActie a Fundação Oikos

em Doorn, Holanda,14-17 de Junho de 2009

 

Chamados pelo Conselho Mundial de Igrejas (CMI), por ocasião do 40º. aniversário do Programa de Combate ao Racismo (PCR) e baseado no nosso entendimento dos princípios básicos de nossa fé, acreditamos que todos os cristãos e cristãs têm a responsabilidade comum de trabalhar por justiça racial e inclusão, e com aqueles e aquelas que sofrem discriminação racial e exclusão, como os Dalits, imigrantes, pessoas de descendência africana, comunidades indígenas e o povo palestino.

1.       Recorremos ao Conselho Mundial de Igrejas para que renove e redefina suas prioridades e inicie um novo movimento junto às igrejas acerca da questão do racismo, divisão de castas e formas relacionadas de exclusão no novo contexto da crise econômica e ambiental e de focos de reavivamento nacionalista. Este movimento deve basear-se na experiência viva das pessoas e comunidades diretamente afetadas por estes processos de exclusão e injustiça. Deve engajar as comunidades da sociedade civil que já estão na luta por justiça racial, econômica e ambiental, alcançar as esferas decisórias das igrejas, não se restringindo àquelas que são membros do CMI, e dar atenção especial à juventude e às crianças. Por isso nós recorremos ao CMI para que inicie a Década de Superação do Racismo e Criação de Comunidades Justas e Inclusivas.

2.       Pedimos ao CMI que interceda junto às igrejas da Índia para que abordem prioritariamente a questão da discriminação de castas.

3.       O Programa de Combate ao Racismo desempenhou um papel histórico ao inspirar uma geração de luta anti-racista nas igrejas. A história do PCR é uma fonte inestimável para as igrejas na sua luta contínua, e pedimos que o CMI documente esta história e seu significado de forma que possa ser facilmente partilhada - de preferência um vídeo de curta duração, que possa ser distribuído em formato de DVD ou através da internet. Ações inspiradas no PCR e outras iniciativas relevantes, assim como materiais em muitas igrejas ao redor do mundo, ainda não foram reunidas sob a forma de uma fonte coletiva de recursos para o futuro. Pedimos o estabelecimento dos meios (de preferência através da internet) para que este material e recursos sejam reunidos e tornados acessíveis às igrejas e ao público em geral ao redor do mundo.

4.       Recomendamos que o Dia Internacional de Eliminação da Discriminação Racial (21 de março) seja adotado como um evento ecumênico anual, no qual as igrejas desenvolvam, partilhem e distribuam liturgias, orações e outros materiais relevantes para a ocasião.

5.       Acreditamos que é necessário desenvolver uma nova articulação do compromisso ecumênico para desafiar a discriminação e promover justiça e inclusão racial, usando especialmente recursos gráficos/visuais e expressões da cultura popular - e pedimos que o CMI faça isto.

6.       Consideramos que, como igrejas e pessoas cristãs, deveríamos refletir conscientemente acerca das maneiras através das quais perpetramos a exclusão e a discriminação racial através do mal uso das Escrituras, assim como através das tradições, atitudes e práticas de exclusão - e deveríamos procurar libertar as igrejas destas tendências. A promoção de interpretações multiculturais, multigeracionais e multicontextuais de passagens bíblicas que lidam com a questão do racismo e exclusão e a criação de recursos por parte das igrejas será essencial para alcançar estes objetivos.

7.       Precisamos abordagens teológicas novas e desafiadoras no que tange a justiça racial, abandonando os discursos correntes que lidam com as pessoas excluídas e oprimidas, adotando uma abordagem ligada aos Direitos Humanos e desconstruindo a posição dos dominantes.

8.       Devemos promover sensibilidade e conscientização acerca do subtexto racista em expressões comuns, nas quais ?preto? e ?branco? são usados como metáforas associadas a valores negativos e positivos, e lutar pela eliminação destas expressões no uso cotidiano, especialmente por parte aqueles que ocupam posições de liderança e influência na igreja e na sociedade.

 

Comentário teológico

Num mundo que geme de dor, exploração e fragmentação da humanidade ferida, Deus demonstra o amor divino ao acompanhar a humanidade neste tempo e lugar. De forma integral à criação, Deus criou os seres humanos, todos e todas diferentes, com direitos e responsabilidades iguais na morada de Deus (oikos). Seres humanos vivendo interdependência manifestam a presença divina. A interpretação africana do termo Ubuntu nos chama a ser totalmente humanos e em direta conexão uns(umas) com os(as) outros(as). O(a) outro(a) não é um(a) estranho(a). Ele ou ela não está separado da gente: eu sou porque você é. Não podemos existir sem o(a) outro(a). Pertencemos um(a) ao(a) outro(a).

Nossa vocação como comunidades cristãs é praticar uma teologia de solidariedade e hospitalidade da forma como estas aparecem encarnadas no discipulado profético de Jesus Cristo. Esta teologia é caracterizada pela integridade, honestidade, humildade, compaixão, amor, justiça e reconciliação. Acreditamos que a dignidade e os Direitos Humanos são parte central do Evangelho e, da forma como foram concretizados por convenções internacionais, a matriz mais construtiva para o trabalho das igrejas na área de defesa de causa. O princípio de anti-discriminação é parte do princípio de igualdade para todos e todas.

O Povo de Deus é uma comunidade de amor e liberdade, é uma igreja que inclui os(as) oprimidos(as) e desfavorecidos(as) e as vítimas de políticas e instituições racistas. Ele transcende todas as fronteiras e rejeita ideologias preconceituosas para construir comunidades novas, justas e inclusivas. Comprometemos-nos a viver pelo poder do amor e não pelo amor ao poder.

 

Quem somos, por que estamos aqui e no que cremos

Somos mulheres e homens, jovens e idosos, leigos e clérigos, ativistas e administradores de igrejas, acadêmicos e teólogos vindos dos quatro cantos do planeta. Cinqüenta de nós reunimo-nos por três dias a convite do Conselho Mundial de Igrejas por ocasião do 40º. aniversário do Programa de Combate ao Racismo e também por ocasião dos 33 anos do levante de Soweto e do 20º. aniversário da queda do muro de Berlim. Celebramos a significante contribuição do PCR para o final do Apartheid e o encorajamento dado às igrejas para que abordassem a questão do racismo. Reconhecemos, entretanto, que falhamos no que tange a erradicação do racismo. Também desafiamos a exclusão deste debate de qualquer situação relevante, incluindo a do povo palestino.

Cremos que há um kairos neste momento para uma ação comprometida por parte das igrejas e além delas, é uma época especial de Deus, um tempo de crise e oportunidade. Cremos que este é um momento em que somos convidados(as) por Deus para nos comprometermos a ser instrumentos de mudança na igreja e na sociedade. Cremos que Deus está chamando membros da igreja à ação com e em nome dos(as) marginalizados(as), pobres e todos(as) os(as) excluídos(as). Cremos que, ao reagir a este chamado, temos a fé e os recursos para fazer a diferença na comunidade global na qual vivemos.

Cremos que Deus diz: Chega!

Violentamos o planeta. Roubamos bens uns(umas) dos(as) outros(as). Em nome da ganância, criamos uma ideologia de exclusão e discriminação. A crise econômica global, as mudanças climáticas e a exclusão sistêmica - gerando desespero e aumento nos fluxos migratórios - são os três eixos da crise que criam o kairos e chama-nos ao arrependimento. Falhamos no amoar ao próximo assim como amamos a nós mesmos. Precisamos nos arrepender dos pecados do racismo, consumismo e capitalismo, que são formas de rebelião contra Deus.

Deus diz: Chega!

É hora de um novo momento. É hora de um novo mundo, como comunidade justa e inclusiva. É hora de uma nova espiritualidade que valorize mais ubuntu do que o individualismo, mais a interdependência do que o nacionalismo, e mais o conteúdo do caráter do que a cor da pele. Tal nova espiritualidade nos chama a acolher a presença de Deus em toda criação quando dizemos: existo porque a criação existe.

Deus diz: Chega!

Temos recursos de resistência. Temos recursos de sustentabilidade. Temos recursos de fé que enraizam nossa esperança num futuro que promete igualdade e integralidade para todo o povo de Deus.

Confissão

Como igreja, somos membros de comunidades marcadas por julgamentos feitos à base de formas de intolerância de raça, gênero, xenofobia ou como o sistema de castas. Mas, ao mesmo tempo, confessamos que somos comunidades que freqüentemente fazem falsos julgamentos acerca dos outros, somos culpados e buscamos proteger nosso privilégio através da exclusão de outros.

Reconhecemos que, como igrejas, fomos freqüentemente tolhidos por nossa tradição, instituições e estruturas de poder. Às vezes, ao trabalhar em nome do interesse do Estado e do capital, falhamos no questionamento às leis, instituições e estruturas de poder e opressão. Falhamos no que tange a vivência da visão de uma morada de Deus e nossas compreensões partilhadas acerca de hospitalidade, inclusão e justiça em nossa fé e em diálogo com outras confissões de fé.

Queremos ser parte da promessa de Deus por um mundo reconciliado. Confessamos que somos tanto opressores(as) como oprimidos(as) e reconhecemos nossa necessidade de arrependimento. Confessamos a necessidade de reparo e conserto quando nos comprometemos com nossa santidade e unidade.

Nosso compromisso

Reunidos aqui, comprometemo-nos a expandir nossos meios de trabalhar para transformar nossas igrejas, comunidades e o mundo por um futuro justo do ponto de vista racial.

Convidamos e conclamamos a todos os setores do movimento ecumênico para que, assim como o CMI afirmou na Conferência Mundial contra o Racismo, em 2001, "seriamente lutemos para quebrar o ciclos de racismo global e ajudemos os(as) oprimidos(as) a alcançar a auto-determinação".

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