Publicado por José Geraldo Magalhães em Geral - 20/09/2013

Entrevista Maísa

   "Sinto-me aquela confiança que transcende o natural"

   Foto: José Geraldo Magalhães Júnior

A Revda Maísa Gomes de Oliveira foi designada para assumir um trabalho missionário em Moçambique, por meio de um convênio firmado com a Igreja Metodista Unida da Alemanha. Ela vai trabalhar num lugar carente de tudo e assolado pela malária. Enfrentará solidão e discriminação. Mas está irradiando felicidade. Sente que está atendendo a um desejo que Deus colocou em seu coração.

 Como você iniciou o seu ministério pastoral?

Nasci na terceira geração de uma família de metodistas, em Governador Valadares, MG, e senti meu chamado ainda adolescente. Mas não pensei em ser pastora. Eu queria apenas estudar para ajudar o pastor da minha igreja. Em 1990, a Faculdade de Teologia da Universidade Metodista de São Paulo começou a ter os olhos missionários e abriu um campo em Rondônia. Ao me formar, voltei para a 4ª RE para cumprir o meu período probatório (o período que antecede o exame da ordem presbiteral), mas já fui pensando em ir para Rondônia.

 O que a atraía na Região Missionária do Norte?

O desafio. O novo. A oportunidade de fazer diferença, de fazer algo de bom. Eu sabia que podia fazer algo. Fui para o norte com a intenção de ficar três anos. Aumentei para seis, depois para nove. Fiquei quatro anos em Rondônia, trabalhando com nossas igrejas na cidade de Ariquemes, Cacoal, Rolim de Moura, Riozinho e também junto aos povos indígenas Cinta-larga e Apurinã. Foram dias muito abençoados.

Com os povos indígenas foi uma experiência linda!  A convivência do dia-a-dia, eu pude mostrar que não estava interessada em tirar nada deles, mas em ajudar.  Depois fiquei um ano em Belém do Pará e nos últimos cinco anos estive na Igreja Metodista Central de Manaus, Amazonas. Durante esse período, pude trabalhar no projeto Barco Metodista Saúde Integral, projeto desenvolvido pela AMAS - Manaus junto aos povos ribeirinhos, e ajudar o Bispo Adolfo Evaristo de Souza no pastoreio de nosssos/as pastores/as como superintendente Distrital. Nesses últimos cinco anos meu distrito compreendia o Estado do Amazonas e Roraima.

 A bispa Marisa, no culto de comissionamento (leia matéria na pg. 10) falou sobre a solidão que às vezes se abate sobre o(a) missionário(a). Você sentiu isso?

É, às vezes, o colega mais próximo está a mais de 200 km de distância... E para sobreviver a gente acaba construindo pontes de relacionamento... Mas, de fato, a solidão é muito forte.

 E sua família, como tem reagido à sua opção missionária?

Meus pais já estão com o Senhor, tenho irmãos/as mais velhos, pois sou a caçulinha da casa. Minha família sempre me deu apoio. Eles nunca questionaram minha vocação. Vêem como algo natural. E não se surpreenderam nem quando eu disse que ia para Moçambique. Simplesmente disseram: "a gente sabia que isso um dia ia acontecer". E sabiam mesmo. Quando alguém dizia que a Amazônia era muito longe, eu respondia: "Não, a Amazônia é perto. Longe é para onde um dia eu ainda vou... "

 Você pensava em ir à África um dia?

Sim, sempre tive um desejo muito grande de fazê-lo, e quando senti no meu coração que o meu tempo no Norte havia acabado, sabia claramente em meu coração que um novo desafio estava a minha espera.  Compartilhei então isso com Bispo Adolfo Evaristo de Souza e foi quando tomei conhecimento que a vaga do trabalho em Moçambique não havia sido preenchida. Não tive dúvida, comuniquei com meu outro bispo, Revdo Roberto Alves de Sousa, pois sou da Quarta Região Eclesiástica. Ele me autorizou a começar o processo e tudo transcorreu na direção de Deus. Talvez para alguns essa decisão pareça ir contra a lógica, não é? Mas eu sinto no coração esse chamado, que transcende a racionalidade. E esse é o meu tempo.

 Como você tem se preparado para este desafio?

A Faculdade de Teologia tem sido uma grande parceira. Estou hospedada no campus, onde ficarei por três meses, fazendo leituras direcionadas para a área teológica, conversando e me informando um pouco mais com pessoas que já tiveram essa experiência e tentando  conhecer um pouco  o universo africano. Vou trabalhar na área teológica lá em Moçambique, ajudarei na formação de pastores e pastoras.

 Em que local você ficará?

Ficarei em Cambine, o berço do metodismo em Moçambique. É uma "vila metodista" onde se concentram o seminário, escola para rapazes e moças, orfanato e ambulatório. A idéia é que esse local transforme-se num centro universitário. Está sendo realizado um convênio entre Moçambique e a Universidade Metodista, para a implantação de cursos à distância. Mas o convênio ainda não se concretizou por causa da precariedade do lugar.  Cambine sequer tem energia elétrica.

 Numa conversa com o pastor Nadir Cristiano, ele contou que o período em que Moçambique foi colônia de Portugal deixou marcas que ainda não se apagaram. Uma delas é a rejeição ao idioma português (que embora oficial, não é falado no dia-a-dia) e o preconceito com relação a pessoas brancas. Você não teme ser discriminada pela cor de sua pele?

Acho que vou enfrentar maior discriminação não por ser branca, mas por ser mulher. A discriminação contra a mulher é violenta. Na cultura tribal, que ainda impera no país, homens e mulheres têm papéis muito definidos. Por isso, a minha aparência -- branca, parecendo européia ou americana - talvez até ajude: talvez eu não seja vista da maneira como seria uma mulher moçambicana, mas como uma pessoa que vem de fora designada para ajudar.

 Como você espera vencer essa discriminação?

Talvez eu não vença. Talvez consiga apenas abrir um pequeno espaço.

 Que outra contribuição você espera levar a Moçambique?

Primeiro de tudo, quero aprender com eles. Não digo que vou lá para ensinar. No aprendizado, a gente vai encontrando elementos em que se pode contribuir. Não vou lá para transformar o país, nem para propor algo novo. Quero  aprender, interagir, ajudar naquilo que for possível, respondendo a um chamado de Deus ao meu coração. Dando aulas no seminário, estarei indiretamente trabalhando com várias comunidades, pois os pastores(as) são multiplicadores da fé.

 Quanto tempo você deverá ficar em Cambine?

Três anos, com a graça de Deus. Não posso me esquecer nunca da misericórdia dEle.

 Algo a preocupa? (a pergunta parece surpreendê-la e ela demora alguns segundos para responder.)

Preocupo-me apenas em ser aprovada; encontrar-me na condição de "obreira aprovada". (2 Timóteo 2.15).

 E o que mais te dá vontade de louvar? (seu rosto ilumina-se com um sorriso largo)

A oportunidade única na minha vida! A alegria de poder vivenciar essa experiência transcultural. Vivenciar Deus no meio deles. Não há palavras para descrever esse sentimento. A gente sente aquela confiança que transcende o natural. Tem a convicção de que este é momento. Estou indo. Não posso me comparar a Abraão, mas é como se ouvisse a voz: "Sai da tua terra e da tua parentela... " As demais coisas serão acrescentadas. Como eu já disse, olhando de uma perspectiva racional, pode parecer loucura a minha decisão, mas o que seria de nós se os apóstolos pensassem assim? Se os primeiros missionários americanos que vieram ao Brasil pensassem assim? Alguém tem que responder ao chamado de Deus. Como metodistas brasileiros, somos  devedores do trabalho missionário.

E como a Igreja no Brasil pode ajudar?

Em primeiro lugar, com oração. Não me abandonem, não esqueçam de mim. Se o espírito está forte, o corpo acompanha. Em segundo lugar, sendo solidário e estando em contato. Meu e-mail é maisaafrica@gmail.com. Só não vou poder responder às mensagens com muita regularidade. A cidade mais próxima com Internet fica a uns 500 km de distância...

 

Suzel Tunes

 

 


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