Publicado por José Geraldo Magalhães em Geral - 13/09/2013

Entrevista Moisés

Você pertence à Igreja Metodista há quanto tempo?
Nasci num lar metodista, na cidade de Ourinhos, na Vila Margarida, em 1942.

Sempre se envolveu com música na Igreja?
Na realidade, fui envolvido pela música, pois meus pais, Benedito e Maria José da Rocha (baixo profundo e contralto) sempre cantaram no coral da igreja.

 
Rádio USP:, foto C. Bastos

Na Escola Dominical sempre cantei em dueto com minha irmã Gilda. Em 1958, já na Igreja Metodista da Luz, recebi as primeiras noções musicais com o pianista Orlando Dinelli. A partir de então, já integrante do Coral da Luz, passei a atuar em quartetos ecomo solista, não somente na Igreja, mas também em casamentos e eventos, nas mais variadas denominações.
Em 1961, já servindo o Exército, juntamente com outros dois colegas evangélicos, formamos um trio, que saía fardado, cantando em várias igrejas. Nós, jovens, achávamos que podíamos testemunhar que, embora soldados (que tinham má fama de comportamento), podíamos dar testemunho, cantando fardados.
Eram os tempos dos inesquecíveis acampamentos e congressos, das federações de jovens e juvenis, onde se cantava muito.

Num desses eventos, fui convidado pelo pastor Rubens de Souza, a participar do Conjunto Masculino Wesleiano, no seu segundo ano de existência, já sob regência do Dr. Roberto Machado, na Igreja Metodista no Ipiranga, onde permaneço até hoje.

Como você iniciou sua carreira profissional?
Em 1965, inspirado nos programas radiofônicos, procurei a Rádio Cometa (primeira emissora evangélica de São Paulo, idealizada pelo também metodista Dr.Joel Jorge de Melo), tentando conseguir um horário para um programa. O então diretor, Domingos de Lello, me convidou para trabalhar como locutor. Então, em 1967, iniciei meu ministério "radiofônico" na apresentação do programa "Táxi Música e Notícia" (substituindo o seresteiro Francisco Petrônio) e ao mesmo tempo realizando meu sonho, criando uma série de programas musicais sacros, tais como "Alvorada com Deus"e "Suave Promessa"(este,com o nosso QuartetoSinai), lá ficando por cinco anos. Prossegui meu aprendizado em muitas outras emissoras de Rádio e TV exercendo as mais variadas funções: tais como repórter, noticiarista, produtor, coordenador,apresentador, redator etc.

Há quantos anos você apresenta o programa "O samba pede passagem", seu trabalho mais conhecido?
Em 1978, fui convidado para exercer minhas funções na recém inaugurada USP FM 93,7 Mhz, na Cidade Universitária, para fazer a programação musical. Passei então a apresentar também vários programas de MPB (sertanejo, sambas canções, instrumental e o de samba). Na realidade a USP FM foi a primeira Rádio FM a apresentar música sertaneja, nordestina e samba no Brasil.

É você que escolhe toda a programação? Como é feita essa escolha?
Eu só aceito trabalhar em uma emissora onde eu tenha plena autonomia na escolha das músicas que vou apresentar.A primeira preocupação que o programador deve ter é não fazer uma seleção atendendo somente o seu gosto pessoal. É aliar a qualidade de letras e músicas, de preferência que não contenham duplo sentido, palavrões e, sempre que possível, procurar músicas que além de propiciar um conforto, ainda contenham alguma mensagem de otimismo, de valorização pessoal, de auto-estima. Isso acontece tanto nos programas na Rádio USP FM 93, 7Mhz, como na Rádio Capital AM 1040Kz.

Hoje já se encontram ritmos brasileiros em cânticos da Igreja, mas nem sempre foi assim; samba era música "do mundo"... Em algum momento você sentiu alguma rejeição ao seu trabalho por parte da Igreja?
Bem, aprendi desde criança a conviver com o preconceito, social e racial. Então, saber que haviam considerado a minha carreira no rádio e TV como abandono da Igreja para ingressar no mundo do pecado realmente não me surpreendeu. Quantos membros não foram excluídos por denominações que hoje mantém redes de comunicação!Se as ingênuas brincadeiras de roda trazidas pelos missionários americanos já não eram toleradas em algumas igrejas locais, imagine você apresentando shows de música popular!
Convivendo no meio artístico, como eu fiz, tanto no rádio, TV ou teatro, você encontra muita gente, como eu, formada na Escola Dominical e na Igreja e rejeitada por ela. Em que Igreja o jovem pode exercer hoje o seu talento artístico? A maioria das nossas Igrejas abandonou a formação dos coros, praticamente baniu o teatro, a poesia e outras manifestações artísticas. Onde estão as nossas festas lítero-musicais?

Se no passado muitos músicos da Igreja foram para a mídia, hojeparece que é a mídia que está entrando nas igrejas, por meio da cultura gospel. Como você avalia a atual cultura gospel: o que ganhamos e o que perdemos?
Essa cultura gospel de fato, invadiu a Igreja. Acaba sendo o outrora caminho largo para conduzir os "pecadores" à salvação. Qualquer ritmo brasileiro, desde que trabalhado e exercido com aprimoramento, com equilíbrio, terá sempre o mesmo valor que um tradicional. Agora, se você pegar um dos nossos belos hinos, até aqueles clássicos dos grandes mestres e for interpretado por um coral desafinado, mal preparado, provocará o mesmo efeito que um gospel atual, tocado por guitarras e baterias ensurdecedoras: a fuga de qualquer cristão com o mínimo de sensibilidade. Vai provocar o mesmo efeito de certos ritmos predominantes nos meios de comunicação (Rádio e TV) que só visam o consumo, com o merchandising disputando e vencendo o show televisivo. O fato de meu irmão pensar diferente, ter outro gosto musical, não o torna meu inimigo. Isso não impede que nossa hinologia seja preservada e que o espaço na liturgia seja distribuído harmoniosamente pelo dirigente para a pregação da palavra.

E o trabalho com o coral Resistência de Negros Evangélicos? Como surgiu esse coral e qual é o seu perfil ?
Esse coral foi idealizado pela solista Nilcéia Netto, no ano de 1988 para a participação num ato cívico religioso, na Igreja Metodista em Vila Mariana, por ocasião da data oficial da libertação dos escravos no Brasil. Convidado para sua regência, senti que a data exigia também uma reflexão sobre a situação do negro na atualidade e os efeitos da Lei Áurea. Com os depoimentos dos participantes, encontramos inúmeras incompatibilidades entre a história oficial e o evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo, mesmo dentro de nossas Igrejas.Após o evento, os cerca de quarenta componentes de várias denominações, resolveram continuar as atividades.Com o apoio do Rev. Antonio Olimpio de Santana, que atuava no Cenacora, Comissão Ecumênica Nacional de Combate ao Racismo, seguimos cantando negro spirituals, hinos tradicionais, folclore e música popular nos mais variados eventos, em palestras e encontros inter-religiosos, onde quer que pudéssemos levar a palavra de salvação, na esperança de construir uma sociedade mais justa e fraterna para todas as pessoas.


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