Publicado por José Geraldo Magalhães em Geral - 13/09/2013

Jorge Domingues no Haiti

Semana Santa no Haiti

Jorge L. F. Domingues

Era manhã de terça-feira. Desde o Domingo de Ramos venho experimentando a Semana Santa de uma forma diferente de anos anteriores. Tenho estado me preparando para minha primeira viagem ao Haiti, que também é a minha primeira viagem como secretário-geral adjunto nomeado para liderar o Programa de Missão e Evangelismo da Junta de Ministérios Globais da Igreja Metodista Unida. A viagem ao Haiti trouxe-me um significado especial da caminhada de Jesus até a cruz. Em certo sentido, eu vi sua experiência de morte e ressurreição re-vivida pelo povo do Haiti. Eu senti que estava prestes a encontrá-lo novamente no sofrimento daquele povo.

Eu viajei para o Haiti, através da República Dominicana. Naquela manhã, quando meu vôo estava prestes a decolar, o céu estava nublado, com chuva se aproximando, ainda que o sol estivesse brilhando constantemente. Meu francês limitado estava voltando à minha mente e eu desejei que eu pudesse falar creole. Com uma série de sacolejos, subimos repentinamente do chão, nas mãos de Deus. Abaixo eu vi Santo Domingo, os bairros pobres perto do aeroporto, e desejei comparar com o outro lado da ilha de Hispaniola.

Naquela manhã, eu tinha lido a passagem de Jesus no templo assistindo a viúva oferecendo suas duas últimas moedas. Sua oferta de vida era muito mais valiosa do que a riqueza dos ricos. Isso me fez pensar sobre o que nós estamos doando para o Haiti. Caridade? Ou uma oferta de vida? A possibilidade de reconstruir esta nação com justiça e dignidade? Nosso amor tem que se transformar em ação.

Eu desembarquei no Haiti animado e ansioso pelo que eu iria encontrar. Eu tinha começado o dia pensando na viúva e sua oferta de vida, e continuei a vê-la em pessoa durante todo o dia em Port-au-Prince. O avião ainda estava alto e pude ver os sinais que eu tinha atravessado a fronteira com o Haiti. Montanhas desmatadas, rios secos, parecendo os rios secos do deserto do Arizona, sem vegetação. Mas eu estava no Caribe tropical, não no deserto! Algo estava errado com essa imagem. Ou será a Terra chora as dores da devastação, a mesma dor que aflige o povo do Haiti?

Quando o avião se aproximava do aeroporto, voando sobre o capital, já não era a Terra que estava chorando. Era a cidade. Os edifícios achatados, os telhados inexistentes, as estruturas danificadas chamaram minha atenção. Era um choro diferente. O primeiro foi o grito da natureza violada pelo ser humano tentando escapar da pobreza. O segundo é o grito dos seres humanos em situação de pobreza violados pela natureza. E estes gritos são tão parecidos. Mais tarde naquele dia eu escutei que as áreas com mais árvores foram menos devastadas do que as áreas sem vegetação, porque as árvores absorvem a energia do terremoto em certa medida. Poderia ser verdade que a devastação do meio ambiente aumentou a devastação do terremoto?

Chegar a um país que fala duas línguas que você não entende bem, é sempre tenso. Mas havia algo de familiar no ar, que não pude identificar até mais tarde. De repente, me dei conta do que era: eu estava de volta na Baixada Fluminense, em Caxias, a cidade onde comecei meu ministério no Brasil. Que descoberta! Não havia nada para colocar ou tirar do contexto de pobreza e miséria no Brasil, apenas os diferentes sons que saem da boca das pessoas. Sem essa diferença de idioma, eu poderia jurar que eu estava em uma viagem no tempo para a periferia do Rio de Janeiro, de 25 anos atrás.

O carro que me pegou no aeroporto começou sua viagem para o escritório da Igreja Metodista do do Haiti em Petionville. E minha primeira visão foi um dos muitos acampamentos de barracas para pessoas que perderam suas casas. Elas são de cor branca e azul, aos milhares. Todo espaço plano que estava limpo após o terremoto está coberto com barracas, até mesmo as encostas.

Uma vez vi uma imagem do Êxodo: as trabalhadoras domésticas das Filipinas em Hong Kong em seu dia de folga. Elas ocupavam o centro empresarial da cidade para se reunir e conversar e comer juntas. Eram milhares e milhares de mulheres em dia de descanso de sua vida nômade no deserto. Hoje eu vi as tendas daqueles que viveram e vagaram pelo deserto por 40 anos, ansiando por um novo lar. Mais uma vez a imagem do deserto no Caribe passou pela minha cabeça.

O carro continuou a serpentear pelas ruas e pelo tráfego e eu comecei a ver os sinais de destruição, os escombros pelas ruas. Mas de repente vi um prédio que desabou. Tinha 2 ou 3 andares. Estava achatado como se um gigante tivesse sentado sobre ele. Se havia pessoas lá dentro, no momento do terremoto, eles não poderiam ter saído vivas. Se havia pessoas lá dentro, seus corpos ainda estão lá, porque não havia sinais de que o edifício foi tocado ou vasculhado. E eu percebi que estava olhando para uma sepultura. Tudo isso em poucos segundos. Meu coração estava batendo forte. Minha mente estava girando. Então eu vi outro e outro e mais outro. E então eu vi uma fila, um quarteirão, cheio de entulho. Mas a aleatoriedade é angustiante. Foi uma loteria? Por que essa casa caiu e aquela não?

Chegamos à escola onde está o escritório da igreja e eu vi as crianças debaixo de lonas azuis. Eram salas de aula reiniciadas a céu aberto, para que não percam o ano letivo.

 

 Era uma bela vista. Sorrisos bonitos, olhos brilhantes. Não é de admirar que Jesus disse que de crianças pequenas se obtém um louvor perfeito. Olhando em seus olhos, eu perguntei se elas tinham experimentado o terremoto da mesma forma que eu estava sentindo. A devastação ainda existe em torno de nós, mas a vida continua.

Durante o resto do dia, viajamos à cidade e vi a mesma coisa uma e outra vez, em cada bairro que atravessamos. Mas quando olhamos a cidade do alto de uma montanha, vimos como o terremoto afetou principalmente os mais pobres. Comunidades pobres nas encostas (não diferente das favelas do Rio de Janeiro, como a Rocinha) achatadas, como se tivesse havido um deslizamento seco de terra. E de repente me lembrei da época das chuvas, dos furacões. Meu Deus! O que vai acontecer com essas pessoas, quando chegarem as chuvas? É assustador.

Finalmente, fomos levados para o Hotel Montana, o lugar onde dois de nossos colegas de Ministérios Globais perderam suas vidas. Meu coração estava batendo forte mais uma vez, minhas mãos trêmulas, meus olhos lacrimejantes. Vendo toda a destruição daquele bairro rico, eu não senti os mesmos sinais de morte que eu senti antes, não no mesmo grau. Não havia casa destruída que não tivesse sido tocada, vasculhada, limpa. E chegamos à porta do Hotel. Um portão de metal vermelho alto, fechado com um aviso de que ninguém pode entrar. E o mesmo disse o guarda de segurança. "Não é seguro. É privado. Vocês não podem entrar." Por quê? Precisávamos ver o lugar que tínhamos imaginado tanto durante aqueles dias de angústia de janeiro. Mas tivemos que retornar do portão. E paramos a poucos metros do Hotel, numa abertura da rua, de onde podíamos ver as montanhas pobres à nossa frente novamente. Há milhares e milhares de pessoas que vivem ali, em tendas, barracos, muitos que não sobreviverão ao período de chuvas. E de repente levei um susto. Como uma voz sussurrando em meu ouvido: “Aqueles que você veio procurar aqui já foram para o céu. Olhe ao seu redor. Estas são as pessoas que estão aqui para você olhar. Estas são as minhas ovelhas sem pastor. Cuida delas.”

Meu Deus, meu Jesus! Eu vi a viúva de novo! Vi Jesus sofrendo e morrendo e ressuscitando nos olhos das crianças! É Semana Santa no Haiti! E Jesus é Haitiano!

Era Sexta-Feira Santa, quando eu estava no meu caminho de volta a Nova York. No nosso segundo dia em Port-au-Prince, pudemos avaliar nossa visita curta, mas intensa, do dia anterior com o presidente da Igreja Metodista do Haiti e discutir os planos para o futuro próximo e remoto. Há muito a ser feito. Nossa presença e nosso trabalho é apenas um pedaço minúsculo de que é necessário.

Nossas visitas e reuniões, deram uma idéia da magnitude da tarefa e das capacidades e limitações da igreja de lá. Nós pudemos conhecer a sua compaixão no meio da dor. Aqueles cujas casas não foram afetadas abriram as suas terras, seus jardins para as famílias que perderam seus lugares para colocar barracas e ter um lugar para morar. A escola que visitamos abriu sua quadra de esportes para centenas de famílias. Eles têm mil alunos assistindo aulas debaixo de lonas, sob as árvores, e uma outra comunidade de mais de dois mil vivendo no mesmo local. A solidariedade não está faltando.

Indo de um lugar para outro vimos também que a vida não parou. Vimos centenas de vendedores de rua, milhares de trabalhadores contratados para remover os escombros, as pessoas indo e vindo todos os lugares. Nós vimos olhos cansados, sorrisos brilhantes e um cheiro de esperança no meio da ansiedade pelo futuro imediato.

E no caminho ao aeroporto para levar o Bispo Ough e a Melissa Hinen quem eram os outros da nossa equipe, fomos levados para uma visita final. Paramos no Hospital Grace para Crianças e visitamos as instalações danificadas. Foi assustador estar andando sob os tetos e paredes sustentadas por vigas metálicas. Eles poderiam cair a qualquer momento. Mas era tão impressionante ver cada centímetro de espaço minimamente seguro ser utilizado para que eles possam continuar a servir as crianças com deficiência ou AIDS ou outras condições que continuam a vir todos os dias. Antes do terremoto eles atendiam a 300 pacientes por dia. Agora eles estão vendo apenas metade desse volume. Mas onde? Como?

Saímos dos edifícios danificados e vimos as tendas do lado de fora. Era ali! Sob as tendas estão os doentes e os enfermeiros e os médicos. Fomos a uma lona azul e era hora de almoço para bebês e crianças com deficiência. Que imagem reconfortante. Que esperança. Tínhamos acabado de visitar a maternidade que está totalmente destruída e imaginamos o pânico das crianças durante o terremoto. E agora nós vimos seus olhos brilhantes e os sorrisos quando nos aproximamos delas, mesmo sob o calor escaldante do meio-dia sob a lona. Deixamos o lugar molhados de suor e sorrindo.

Depois de um dia e meio, eu era o único membro da nossa equipe no Haiti. Mais reuniões e planos. Conversas sobre as necessidades do país e como a igreja pode ajudar. É evidente que a capacidade é limitada. A ajuda é necessária para organizar, mas a energia é alta. E chegou a minha última noite no Haiti. Queria poder ficar mais tempo e visitar mais pessoas. Há muito mais que eu quero aprender. Mas de repente eu ouvi a chuva. Tinha chovido todas as noites da semana. Foi uma chuva rápida. Durou menos de uma hora. Nós quase não a notamos pela manhã. Mas para aqueles que vivem em barracas a chuva é chamada para acordar, literalmente. A temporada de furacões está a caminho e a chuva pode ser o próximo desastre. Olhei para a chuva lá fora e senti o desejo de orar. Por favor, Deus, derrama sua graça sobre essas gente que sofre.

Era Sexta-feira Santa. Eu li a passagem bíblica da Via-Sacra no avião. À noite, fui ao culto da Sexta-feira da Paixão na minha igreja, St. Paul e St. Andrew UMC. A morte de Jesus é a nossa redenção, a redenção do povo do Haiti. Oh, Deus! Que a  ressurreição de seu filho seja um sinal de vida nova para o povo do Haiti! Que esta seja uma Semana Santa para este país que sofre Que seja Semana Santa no Haiti! Que venha a Páscoa no Haiti!


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