Publicado por José Geraldo Magalhães em Geral - 13/09/2013

memória e esperança

   

"Quero trazer à memória o que me pode dar esperança" (Lamentações 3.21)

A partir dessas palavras escritas, o autor muda seu discurso radicalmente. Mas por quê? Que força é esta capaz de mudar o ânimo de quem estava completamente desolado? A primeira questão é esta:

1- "A Memória é subversiva".[1]

Esta frase de Rubem Alves diz muito a todos nós. Se tem algo que uma ditadura, seja de que tipo for, mais teme é a memória de um povo. Santo Agostinho, ao escrever "Confissões", dedicou o capítulo 8 para falar sobre "O milagre da memória". E ele diz em determinado trecho que: "No palácio da memória encontro comigo mesmo, recordo de mim e de minhas ações, de seu tempo e lugar, e dos sentimentos que me dominavam ao praticá-las". O profeta de Lamentações estava em meio a um cenário de dor e destruição, requerendo de si mesmo uma imagem que relembrasse a Jerusalém gloriosa, talvez uma Jerusalém que nem ele mesmo tivesse visto, mas que lhe contaram no decorrer de seus anos. Há uma chama na lembrança que não pode ser apagada. Alguns vão dizer que é saudosismo, que quem vive de passado é museu, mas não. É a história, histórias de conquistas, de alegrias, mas também de derrotas e tristezas.

Durante o período do regime militar no Brasil, o que mais tentaram fazer com o povo brasileiro é apagar a sua memória. Passaram uma imagem de progresso industrial e econômico que o Brasil nunca teve. Mega-indústrias, grandes obras que começaram, mas nunca terminaram...é como se dissessem: Esqueçam tudo o que foi feito, temos algo novo! Para que reviver o passado? E parece que por um tempo vivemos dessa forma...esquecidos de quem somos, de nossas origens e adotamos a ditadura cultural, econômica e política de outros países. Alguns chegaram ao cúmulo de esquecer as atrocidades da ditadura militar e desejar a sua volta, chegaram a nomear um torturador dentro de um governo "democrático". Até o Deus dos oprimidos foi apagado da memória. Mas, como diz Rubem Alves, a Memória é subversiva! Ela é rebelde, porque quando ela vem é para dizer que as coisas não precisam ser do jeito que são. Por isso, a maioria dos governantes teme a memória... Volto aqui a citar Santo Agostinho: Na memória estão todas as lembranças do que aprendi, quer pelo testemunho alheio, quer pela experiência.Talvez haja lembranças não muito agradáveis, mas quem disse que só o sucesso é que traz lições? Pela memória chegamos a lugares que não vemos há anos, recordamos ações corajosas e errôneas de outrora... "Quero trazer à memória..." Já clamava o profeta solitário nas ruas desertas de Jerusalém... "O que me pode dar esperança"...

2 - O Sentido da Vida é a Esperança.

A memória traz a tona um sentimento que é teimoso: A esperança. Esperança é, no meu entender, a vontade de viver, lutar e ver as mudanças acontecerem. O cenário catastrófico que vivemos nesse inicio de século é desanimador, mas esse sentimento insistente chamado "esperança" continua muito vivo e ativo. E mais ainda, o desejo incontrolável de não ser um mero espectador esperançoso, mas sim, de ser um colaborador esperançoso. Por isso o profeta solitário de Lamentações muda seu discurso, ele recorda, e enche-se de esperança... seria irônico um homem no meio de uma total destruição falar que "as misericórdias do Senhor se renovam a cada manhã". Mas não é ironia! Esta é a esperança que brota da memória, da gratidão, do sofrimento...

Conhecemos uma família em que a senhora é membro de uma denominação evangélica e o marido, que já foi membro também e hoje está afastado, é escravo do alcoolismo há quase 25 anos. Estive na primeira visita e fiquei impressionado com o estado de miséria em que vive aquele casal. Porém, fiquei mais impressionado foi com as palavras daquela mulher que a toda hora dizia: O Senhor Deus está sempre comigo! Isto é esperança! E não essas promessas inconseqüentes promulgadas por essa aberração chamada "teologia da prosperidade". Como explicar um ser humano no mais absoluto estado de pobreza, ainda exclamar: Deus está comigo! É como tentar explicar como um profeta, em meio à ruínas do que um dia foi seu lar, ter a coragem de dizer: "As misericórdias do Senhor se renovam a cada manhã!" Não há explicação! É a fé que brota da esperança! Fé, não conformismo...porque algumas vezes esquecemos que os pobres, nós pobres, também sonhamos... também lutamos para mudar uma realidade. E transformações começam com a esperança.

Há uma citação da Igreja Anglicana em uma das suas campanhas anuais que acho simplesmente maravilhosa, diz assim: "Eu acredito na vida antes da morte". Isto é esperança! Acreditar na vida sempre, acreditar em mudança sempre, acreditar que ainda há sonhos a serem sonhados, que ainda há objetivos a serem alcançados. Acreditar que a Igreja de Cristo ainda é instrumento para mudança. Não com um discurso de que só "no céu vamos ter a nossa recompensa", mas peço a Deus que ainda em vida eu possa participar e ver sinais reais de mudanças aqui neste mundo criado e amado por Ele. "Quero trazer à memória, o que me pode dar esperança!".

Conclusão

Através da força da memória alcançamos o poder da esperança. A esperança nasce no presente para se consumar no futuro. A Ceia e a Ressurreição do Senhor são as memórias e a vitória da Vida sobre os poderes da morte. Esperar no Senhor, como o profeta de Lamentações, é enxergar sinais de vida nas atuações da morte. E mais do que isso, fazer esses sinais serem vistos pelo Seu povo. Outro dia disseram que isso é ser sonhador demais. Mas, eu fico novamente com Rubem Alves: "É mais belo o risco ao lado da esperança que a certeza ao lado de um Universo frio e sem sentido..."

Que Deus nos abençoe!


[1] Frase citada por Rubem Alves

Rev. Antônio Carlos Soares dos Santos, Igreja Metodista em Altamira, Pará.

 


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