Publicado por José Geraldo Magalhães em Geral - 20/09/2013

Palavra Episcopal abril 2006

 

Marisa de Freitas Coutinho é Episcopisa na Região Missionária do Nordeste (REMNE)

"Que seja o nosso cantomaior que o nosso teto;Que seja o nosso abraço Maior que os nossos ombros..."

 Canção já um tanto esquecida, entoada recentemente em nossa Igreja em Aracaju, enchendo o coração do povo de Deus. No dia do seu 40º aniversário a Igreja também profetizou, com muita unção e alegria:

"Prá nada pode a gente aproveitar, cantar, orar, louvar com emoção, se isto não se faz acompanhar do amor a quem está só ou na opressão... É coisa que não dá prá dividir: o amor a Deus e a quem está junto a nós".

Enquanto cantávamos, também dançávamos e nos alegrávamos; Testemunhávamos a "alegria e a esperança do serviço", com prazer e coração aquecido. Todos/as ansiando que cada metodista fosse um(a) missionário(a) e cada lar uma Igreja.

Num dado momento o irmão Messias, jovem, casado com a Íris (conselheiros locais de juvenis), nos afirmou: "um dia o muro cai e pode ter certeza, tudo será revelado". Daí em diante contou uma experiência interessante: ele sempre via, ao lado de um determinado bar/mercearia, um muro. Sempre bem cuidado compunha bem com a mercearia/bar, dando a impressão da mais harmônica beleza. Dado um dia o muro caiu. E daí revelou-se o seu "outro lado": lixo, entulho, garrafas vazias, podridão, ratos e baratas. Caiu o muro e com ele toda a pretensa beleza harmônica. O "belo" servia de aparato para as escondidas atitudes insólitas de pessoas desconhecidas, ao lançarem ali seus lixos. Assim iludiam-se a si mesmos/as com a sensação de que haviam cumprido com o seu dever de bons/as cidadãos/ãs. Doce ilusão; sarcástica realidade. Pareceria uma cena comum, trivial até, se não trouxesse consigo uma recordação de tempos remotos: culpados/as, homem e mulher no paraíso, escondem sua nudez com folhagens e condenam um ao outro. " - A culpa foi dela. - Não, foi dele". História tão antiga e tão atual. Cabe aqui a palavra do nosso irmão Mateus, capítulo 10:26: "Portanto, não os temais, porque nada há encoberto que não haja de ser descoberto, nem oculto que não haja de ser conhecido."

Assim é que se encaixa aqui o documentário do MV Bill: "Falcões, meninos no tráfico". Cantor de Rap, negro, morador da favela e um dos líderes da Central Única das Favelas, MV Bill aparenta ser dócil e firme. Com o documentário afirma não ter pretendido agredir, fazer sensacionalismo ou ser "o justiceiro". O que quis, e conseguiu, foi mostrar a nós que há algo por detrás dos belos muros bonitos, das nossas belezas sociais. Enquanto o tempo passa do lado de cá do muro, do outro lado gerações seguidas estão vivendo e solidificando uma cultura aterradora: vale a pena ser bandido. E nem é o bandido de colarinho branco não - é o bandido que vende e cheira pó; o bandido que vive na miséria; o bandido que desconhece pai e venera a mãe; o bandido que, com orgulho e alteza, vigia os limites da sua comunidade/favela. Bandidos crianças. Crianças de bandidos. Crianças doídas, sofridas. Vítimas e algozes. Solidárias e agressivas. Violentas e protetoras. Das 17 crianças/adolescentes entrevistadas apenas uma ainda permanece com vida (Jornal Correio, Uberlândia. Caderno Revista, p.C4). Crianças matando e morrendo, numa sangrenta guerra civil aqui, neste país que deita em berço esplêndido.

Athayde, o parceiro de MV Bill neste projeto, comenta do enterro de um soldado e de um garoto falcão: "Naquele momento eu via que as lágrimas que caiam não eram dos governos que as mães acusavam de serem os responsáveis pelas mortes de seus filhos. Eram das mães, pobres, pretas, que podiam ser perfeitamente irmãs de sangue e, naquele momento, eram irmãs da dor, irmãs de sangue derramado pela arma da ignorância". (Jornal Correio, 21 de março de 2006, p.C4).

O binômio crianças e mulheres está presente mais uma vez. Nos seus pronunciamentos as crianças falcões relatavam o amor pelas mães e o desconhecimento e falta dos pais. E o "trabalho" deles visava dar uma vida melhor para as mães e os/as irmãos/ãs. Para obter-se o "progresso" valia a pena traficar.

Cabe aqui um artigo do Veríssimo, (Diário de Pernambuco, Caderno A3, 12 de março/06, Recife), ao afirmar que diante de uma séria questão de guerra o general Groucho "postando-se à frente de um mapa para explicá-lo ao seu comando, diz: - Uma criança de 3 anos entenderia isto".  E depois de algum tempo examinando o mapa: - Tragam uma criança de 3 anos!" Verdade. Certas situações são tão óbvias que uma criança de 3 anos, ainda na sua imaturidade, perceberia o perigo. Mas os/as adultos/as, experientes e maduros/as, não conseguem (não querem?) fazê-lo?

Acabou de cair o muro do Ministro da Fazenda, Sr. Antônio Palocci. Claro que ele (o muro) já andava meio "perrengui", com acusações e escândalos, mas quem deu o último toque foi um caseiro, a quem um certo presidente do Senado certamente teria dito (se pudesse): "recolha-se à sua insignificância". Pois um insignificante empedermido da verdade deu uma assopradinha última. E lá se foi o muro pelo chão. Profecia que se cumpre: "os humildes serão exaltados e os exaltados serão humilhados". Que caseiro digno. Com a sua condição de proletariado foi lá, enfrentou "os grandes" e disse a verdade. E mais: afirmou: "morro dizendo o que vi". Ah, seu Francenildo, neste país de crises o senhor é um herói. Sem pretensão o senhor ensinou aos/às nossos/as filhos/as que: "Viver é negar as futilidades que se impõem e entorpecem. A vida já perdeu seu valor para muitos porque, ao correrem atrás do sucesso, perderam o sentido da existência. Os grandes vencedores receberam suas coroas, esquecendo que a deusa da competência lhes exigiu como sacrifício que se imolassem os afetos, a solidariedade com os fracos e a própria sensibilidade"1 O senhor me faz ouvir a voz do Todo Poderoso: "Ai dos que escondem profundamente o seu propósito do Senhor, e as suas próprias obras fazem às escuras, e dizem: Quem nos vê? Quem nos conhece? Que perversidade a vossa! Como se o oleiro fosse igual ao barro, e a sua obra dissesse do seu artífice: Ele não me fez; e a cousa feita dissesse do seu oleiro: Ele nada sabe. Isaías 29:15 e 16

Você sente-se assim como eu? Impotente? Sou Igreja viva de Cristo e não sei por onde começar. Abril é o mês das vocações. Deus chama o seu povo a uma missão. Olha aí o apelo missionário. As crianças estão aí. As mulheres estão aí. E os muros também. Alguém se arrisca a subir num banquinho e olhar do outro lado? Alguém se arrisca a pular o muro? Há alguém cantando "Eis os milhões que em trevas e pecados..." Ou: "Que estou fazendo se sou cristão?" Ou quem sabe: "Pra nada pode a gente aproveitar..."

Ainda há esperança. A Igreja é de Deus e Ele a convidou a anunciar novos céus e nova terra. O Deus que usou o Rei Ciro é o mesmo que usa o Francenildo e é o mesmo que nos intima à missão. É o mesmo que levou Rui Barbosa a afirmar: "Deus é a chave do universo, a incógnita dos grandes problemas insolúveis. Deus é a necessidade das necessidades".2 E não há outra resposta a darmos a Ele a não ser: "Eis-nos aqui, Senhor! Envia-nos a nós. Envia-nos a espiar os muros" (Isaías 6:6).

Deus amado, que caiam os muros. E que a Igreja, comunidade missionária a serviço do povo, testemunhando a alegria e a esperança do serviço, enfrente a queda destes muros. Sabe por que Deus? Porque até criança de 3 anos vê e conclui: como está não é possível continuar.


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