Publicado por José Geraldo Magalhães em Geral - 10/10/2012

Violência contra a mulher aumenta e preocupa Moderador do Conselho Mundial de Igrejas

Os resultados das pesquisas não deixam dúvidas. A violência contra a mulher geralmente acontece na esfera doméstica. 68,8% dos atendimentos a mulheres vítimas de violência, a agressão aconteceu na residência. No país, foi possível verificar que 42,5% do total de agressões contra a mulher enquadram-se nessa situação.

O Moderador do Conselho Mundial de Igrejas (CMI), Dr. Walter Altmann*, afirma que os números são preocupantes. “O Conselho Mundial de Igrejas dedicou uma década com programas de superação da violência em que foram tomadas iniciativas de várias espécies”, disse Altmann na entrevista para assessoria de comunicação da Igreja Metodista.

O estudo coordenado pelo sociólogo Júlio Jacobo Waiselfiz realizado em parceria com a Faculdade Latino-Americana de Ciências Sociais (Flacso) do Instituto Sangari, aponta o Mapa da Violência Contra a Mulher 2012 que nos últimos trinta anos 91 mil mulheres foram assassinadas no país. Quase a metade (43,5 mil) somente do ano 2000 em diante. O que representa um salto de 217,6% nos índices de assassinatos de mulheres.

Na entrevista realizada no início de outubro na Sede Nacional da Igreja Metodista, em São Paulo, o Dr. Altmann disse sobre a atuação sócio política e econômica do Conselho Mundial de Igrejas, intolerância religiosa, HIV/AIDS e ecumenismo. Leia na íntegra a entrevista abaixo!

 

Como é a atuação sócio política e econômica do Conselho Mundial de Igrejas?

A busca da unidade é preponderante. Há também um histórico consistente de atuação na área social e política, em particular dos Direitos Humanos. Isso expressou, por exemplo, no programa denominado Combate ao Racismo na época que a África do Sul tinha um sistema de segregação racial, o apartheid. Esse programa foi de suma importância, tanto que o presidente Nelson Mandela esteve no CMI em Arari em 1998 para agradecer ao Conselho Mundial pela contribuição. Também na América Latina o CMI se empenhou na questão dos Direitos Humanos patrocinando o projeto Brasil Nunca Mais que resultou num livro denunciando atos arbitrários durante o regime militar brasileiro.

O CMI tem nos últimos anos o cenário mundial que se modificou. Uma das questões recentes foi a declaração a cerca da situação financeira mundial conclamando que haja uma reorganização do sistema financeiro mundial, de tal forma que, o ser humano possa estar acima das finanças. Portanto, com relações mais justas e que não afetam os mais vulneráveis na sociedade.

Nesse sentido, o CMI tem percebido que há uma redução da pobreza aqui no país e cremos que esforços desse tipo devem proceder tanto no Brasil como em outras partes do mundo. Outra agenda importante para o CMI tem sido a questão ecológica. Desde 1984 na Assembleia do CMI em Vancouver, no Canadá, falou a cerca da mudança climática. O CMI foi pioneiro nessa discussão que é amplamente discutida no mundo inteiro.

 

O Instituto Sangari, divulgou o Mapa da Violência Contra a Mulher 2012 que aponta na última década 43 mil mulheres que sofreram violência. Qual a atuação do CMI nesse sentido? 

Há várias décadas o CMI tem programas de uma comunidade de homens e mulheres que considera os direitos plenos e iguais das mulheres em relação aos homens. O CMI reconhece que praticamente no mundo inteiro as mulheres tem estado em situações de discriminação e desvantagens notórias em relação aos homens e, muitas vezes, são vítimas de violência e não rara vezes por parte dos maridos e companheiros que são vitimizadas.

A partir do ano 2000 tivemos a chamada Década de Superação da Violência em que foram tomadas de várias espécies, principalmente visitas a lugares onde a violência se apresentava de uma forma mais intensa para expressar solidariedade com vítimas e pressionar autoridades para uma tomada de decisões nesse sentido. A superação da Violência Contra a Mulher era um dos veios importantes desse programa.

Foi estabelecida uma década para uma época com uma ênfase especial, o que não significa que terminado esse prazo o assunto tenha sido totalmente superado. Creio que podemos registrar em muitos lugares um aumento da consciência da vitimização da mulher e necessidade de superar violências desse tipo.  Pode-se encontrar então na sociedade também na parte de legislação, programas de políticas públicas que tentam priorizar a capacitação da mulher, o respeito ao seu direito e a defesa da sua integridade.  O CMI se associa a isso e também foi uma das molas propulsoras para desenvolvimento desse tipo ao redor do mundo.

 

Intolerância religiosa tem sido motivos de vários conflitos e mortes. Como o Conselho Mundial de Igrejas tem atuado nesses países?

O diálogo e a cooperação inter-religiosa é uma das facetas programáticas do CMI.  É muito importante, precisamente pelo aumento, lamentavelmente, das intolerâncias religiosas e conflitos que, ou são parcialmente motivados por divergências ou justificados por considerações religiosas. Isso tem se expressado, inclusive, de forma violenta em diversas partes do mundo. Uma preocupação muito grande que o CMI tem atualmente é com as minorias cristãs no Oriente Médio e outros países que muitas vezes sofrem discriminação e até violência.

 

O sr. pode nos dar um exemplo?

Claro, a Nigéria, por exemplo, tem tido episódios de violência muito forte de uma ala extrema do islamismo para com comunidades cristãs do norte da Nigéria, embora ocasionalmente tenha tido exemplos de violência cristãs contra muçulmanos. O CMI conseguiu organizar com lideranças islâmicas internacionais uma delegação da qual o próprio Secretário Geral do Conselho Mundial de Igrejas participou de visita à Nigéria, para visitar os locais onde violências ocorreram, escutar pessoas que foram vitimizadas, e gestionar junto as autoridades medidas de proteção, além de fazer uma apelo cristão/muçulmano a ambas comunidades no país para que exerçam um respeito mútuo, uma cooperação e entendimento. Iniciativas desse tipo o CMI apoia e busca realizar também outros programas nesse sentido.

 

O Conselho Mundial de Igrejas tem programas específicos em relação a HIV/AIDS e um dos continentes mais afetados é a África. Esses programas e declarações têm surtido o efeito esperado?

A questão da HIV/AIDS na África infelizmente é um problema muito grave e de grandes dimensões. Seria um exagero que um programa do CMI desenvolvido com boa intensidade, mas com recursos de certo modo limitados pudesse resolver tudo isso.  Sem dúvida tem contribuído em vários locais para uma redução da incidência e prevenção maior.

Também advogando que na África nem sempre é o caso de políticas públicas que dê assistência à pessoas afetadas soro positivas. Nesse caso, o Brasil tem sido mencionado muitas vezes no exterior como um país de políticas públicas no caso de prevenção.  O programa do CMI procura trazer elementos educativos às pessoas para que compreendam os riscos que podem estar correndo, quais as práticas arriscadas e não responsáveis e quais as conseqüências que as pessoas estarão submetidas, portanto advogando em primeiro lugar a prevenção, mas também as pessoas afetadas.

 

Quantas Igrejas são membros do Conselho Mundial de Igrejas e quais os procedimentos para se filiar?

Temos 349 Igrejas e 560 milhões de membros. Temos tido ultimamente relativamente um número grande de solicitações de igrejas que querem se afiliar. No entanto o CMI é cauteloso nesse particular. Em primeiro lugar, precisa ter um número mínimo de membros para poder se filiar e um exercício de prática ecumênica em loco. Uma igreja que solicita a membresia no CMI deve evidenciar que tenha uma prática ecumênica no seu próprio local e não só no nível universal. Deve receber o endosso de Igrejas membros e a base constitucional do CMI, ou seja, a afirmação da salvação em Jesus Cristo para a Glória de Deus Pai, Filho e Espírito Santo, que é a base doutrinária inarredável.

Feito isso uma comissão visita a Igreja, estuda e há um processo de participação mais intensa até a finalização da membresia total. Quer dizer, o CMI não busca a qualquer preço aumentar a sua membresia, nem se entende como única expressão ecumênica. Entende-se que ecumenismo é mais amplo que o próprio CMI.

Ele é um instrumento privilegiado do ecumenismo mundial, mas não exclusivo. Portanto, procuramos estabelecer as relações de diálogos com Igrejas, além daquelas que são membros do CMI.

As igrejas ou pessoas que talvez tenham receio ao CMI que estaria querendo formar uma super igreja que constitucionalmente não pode e nem pretende, ou então teria um desvirtuamento de uma agenda da Igreja que demais voltado ao social e político, não é o caso porque há toda ênfase ao aspecto teológico, diálogo das questões doutrinárias, oração em comum, estudo bíblico que dá embasamento as atividades do Conselho Mundial, mas em muitos lugares há o entendimento de que o CMI é um organismo sócio político. Não é! Ele é abrangente e o testemunho público faz parte do testemunho da Igreja.

 

Rev. José Geraldo Magalhães                                                                                        Assessoria de Comunicação

 

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* Altmann é casado e tem quatro filhas. Na juventude, estudou Teologia em São Leopoldo-RS, prosseguiu com os estudos na Argentina e logo concluiu seu doutorado em Hamburgo, na Alemanha.

Desenvolveu seu ministério pastoral por três anos em Ijuí-RS, e mais tarde integrou o corpo docente da Faculdade de Teologia da Igreja Evangélica de Confissão Luterana – IECLB, onde se graduou e, posteriormente, assumiu a direção da universidade em 1981.

Como reitor, trabalhou por seis anos na estruturação e implantação da Escola Superior de Teologia (EST), criando diversos institutos e o programa de pós-graduação que coordenou de 1989 a 1994. De 1995 a 2001, Altmann assumiu a presidência do Conselho Latino-Americano de Igrejas e, em 2002, foi eleito presidente nacional da IECLB. Atualmente ele ocupa também o cargo de Moderador no Conselho Mundial de Igrejas.


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