Publicado por José Geraldo Magalhães em Geral | 13/09/2013 às 23:42:52


Pastorear com Cajado


Pastorear com o Cajado

A metáfora do aprisco sugere e ressalta a figura do cajado que acompanha o trabalho cuidadoso do/a pastor/a de ovelhas. O salmista, um pastor de ovelhas acostumado com a utilização do cajado para conduzir as ovelhas, considera que Deus é como este cuidadoso pastor.

O salmista afirma categoricamente que a vara e o cajado do Pastor o consolam em todos os momentos da vida (Sl 23.1). Desta forma, é muito sugestivo refletir sobre as quatro funções do cajado nas mãos do/a pastor/a cuidadoso/a:

a) ele/a utiliza o cajado para conduzir as ovelhas durante as jornadas por caminhos perigosos. O cajado era um instrumento que ajudava o pastor a manter as ovelhas pelas trilhas seguras da caminhada. Se uma ovelha se afasta das outras na caminhada ou está andando muito próxima dos precipícios, o/a pastor/a estica o cajado a fim de ajudar a ovelha a seguir segura por este trecho do caminho.
O profeta Isaías usa esta figura do cajado quando o povo estava voltando do exílio para reconstruir a Cidade e o Templo de Jerusalém: “Como um pastor apascenta ele o seu rebanho... conduz carinhosamente as ovelhas que amamentam” (Is 40.11).
b) o cajado é utilizado para que as ovelhas machucadas sejam trazidas até os braços do/a pastor/a ou para erguer aquelas que caíram. Com a parte de cima do cajado, que tem o formato de um gancho, o/a pastor/a estica o cajado e com o “gancho” pega a ovelha e recolhe aos seus braços.

O profeta Isaías também utiliza este cuidado pastoral se referindo ao relacionamento de Deus com Seu povo: “carrega-os no seu regaço” (Is 40.11).
c) com a ponta do cajado o/a pastor/a expulsa as feras que tentam se aproximar para matar suas ovelhas. Além de ser um instrumento para guiar e recolher a ovelha machucada, o cajado é útil para espantar os animais devoradores que se aproximam do rebanho no aprisco ou nas caminhadas.
O profeta Miquéias se utiliza desta figura para falar que o pastor defende, reúne, congrega e liberta suas ovelhas (Mq 2.12).
d) o cajado serve de apoio para os/as pastores/as nas suas longas jornadas de pastoreio, caminhada ao lado das ovelhas e para o descanso nas vigílias noturnas no aprisco das ovelhas. Ele/a se apóia no cajado para oferecer conforto ao corpo já dolorido das caminhadas ou das vigílias. Desta forma, o cajado é instrumento de pastoreio cuidadoso e restaurador.
 Diferentemente do cajado do/a pastor/a, o instrumento que o/a boiadeiro/a usa para manejo do gado no curral ou nos deslocamentos da manada, é o chicote. Com ele, o/a boiadeiro/a chama a atenção da rês que se rebela ou teima em não seguir o caminho apontado, e estala o chicote no ar ou no lombo do animal.
 O chicote instiga o pensamento na direção de uma liderança violenta, autoritária, agressiva e extremamente tensa. Num ambiente assim, o membro da igreja tem medo de se expressar, medo de se dirigir ao/à pastor/a e teme as represálias que pode receber da sua liderança. Em outras palavras, a ovelha, que é tratada como rês, tem medo do chicote que se agita nas mãos do/a pastor/a.
Considerando estes aspectos, com a ressalva de que o/a boiadeiro/a não é, necessariamente, uma pessoa violenta ou que trate seus animais com violência, utilizo a figura do curral e, nesta reflexão, do chicote, para chamar a atenção da importância do pastoreio acompanhado de atitudes de valorização, de dignidade, de solidariedade, de justiça, de reconhecimento e que não é necessário, em hipótese alguma, que o/a pastor/a cometa violência contra as suas ovelhas.
Pastorear se constitui num dos grandes desafios do mundo moderno, pois as pessoas estão carentes de afetividade e de cuidado. Isto reclama um pastorado presente e efetivo.
O desafio maior é o “ser pastor/a”. A pessoa que exerce o pastorado tem o desafio de conectar aquilo que é, enquanto um ser vivente alcançado pela graça de Deus, e suas ações pastorais. Neste sentido, a sociedade hoje impõe uma complexidade muito grande para o “ser pastor/a” e a pessoa que se dedicou a este ministério precisa ter como modelo o ministério de Cristo. “um líder não é feito pelo ato formal da ordenação ou investidura. Um líder é uma pessoa em constante construção. A construção do caráter do líder se faz pela observação constante do caráter do Supremo Pastor Jesus Cristo”[1].
A expressão “modelo” não indica o modelo que dita moda (modelo da passarela) nem o modelo em série (indústria de automóvel). Ela é utilizada para indicar a referência, o fundamento e as concepções que dão sustentabilidade para as ações ministeriais.
O/a pastor/a é uma pessoa que, a priori, não negocia sua identidade, sua confessionalidade, sua lealdade, sua fidelidade, sua honestidade, sua transparência e seus valores. Ele/a encontrou a força para resistir e, portanto, cumprir cabalmente o ministério para o qual foi chamado/a.
E este ministério tem um ícone, o aprisco das ovelhas que exemplifica as atitudes do Bom e Grande Pastor, Jesus Cristo.

Bispo Josué Adam Lazier

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[1] OLIVA, Alfredo dos Santos. O pastor urbano é um líder contempl-ativo. In: BARROS, Jorge H. (org.)  O Pastor Urbano. Londrina, PR: Descoberta Editora, 2003, p. 116

 


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