Publicado por José Geraldo Magalhães em Destaques Nacionais - 28/10/2015

A Reforma Protestante hoje: entre inovação e descarrilhamentos

Pr. Luís Wesley de Souza
Candler School of Theology, Emory University | Expositor Cristão
 
 
Livre interpretação das Escrituras, justificação pela fé somente, sacerdócio universal de todos/as os/as crentes. São esses os principais pilares da Reforma Protestante histórica, que redesenharam o todo da fé cristã, cobrindo da doutrina à experiência, do culto à linguagem, do estilo às estéticas, dos significados às práticas. Sobrou alguma coisa? Muito, mas também pouco!
 
Com o espírito da Reforma ocorrida na Europa, o cristianismo voltou a experimentar o que nasceu para ser: um movimento do povo de Deus, cuja centralidade resida em Cristo e que, em seu esforço intuitivo, mas não menos deliberado, cônscio, objetivado e organizado pela e para a missão cristã, buscou construir novas culturas, formas, significados e práticas mais satisfatórias.  
 
Na América Latina experimentou-se uma história dramaticamente diferente. Marcada por 300 anos de domínio católico romano, ficou sem exposição significativa ao desenvolvimento da Reforma. Percebe-se, todavia, que ainda hoje os/as participantes das igrejas herdeiras da Reforma, chegadas mais tarde à América Latina, continuam à busca de espaços para a livre expressão de anseios do povo de Deus: revitalizar a fé, torná-la menos institucional, mais íntima e mais orientada pela missão de fazer discípulos/as de Jesus Cristo para a transformação da realidade e do mundo.
 
O protestantismo é vocacionado à inovação. Reinvenção e recriação estão no cerne do que ele é. Daí a ideia de “reforma, sempre se reformando” que, mais que um jargão ou receita para a continuidade criativa, é condição para a sua sobrevivência.
 
Ocorre, contudo, que hoje, no Brasil, diante do estado deplorável em que se encontram alguns dos ramos do protestantismo, essa natureza inovadora hospeda exacerbações e descarrilamentos de con­teúdos e projetos, e fertiliza o surgimento dos mais diversos “esquisitismos” teológicos e eclesiológicos. As igrejas históricas foram e continuam sendo violadas por valores, teologias e práticas neopentecostais que, no mínimo, relativizaram valores fundamentais da Reforma e da pós-Reforma, gerando um novo protestantismo desmemoriado, desreformado, desconectado, desorientado e, assim, deformado em sua identidade, confiança, elasticidade histórica e participação construtiva na sociedade.
 
Politizar agendas pessoais em todos os níveis da nação e da igreja, importar pacotes que pouco ou nada têm a ver com aquilo que nascemos para ser, engessar o movimento com metodologias estanques, focar em resultados numéricos, legitimar e perpetuar injustiças, experimentar a fé enquanto bem de consumo, fazer encampação ideológica de instituições, recrudescer fundamentalismos disfarçados por tecnologia e mídia, controlar os/as desinformados/as e privá-los/as do acesso ao conhecimento que conscientiza e liberta, promover relações de intolerância, discriminar os/as que agem e pensam diferentemente, enfim... Tudo, ou parte disso, se já não é, está quase se tornando a-tabuada-nossa-de-cada-dia. Ora, isso é evidência de sermos continuadores/as, sucessores/as ou herdeiros/as da Reforma? Não. A Reforma Protestante não se prestou, nem se presta a essas coisas. 
 
A igreja não pode dar-se ao luxo de querer ter mais do mesmo, notadamente no que se refere à sua natureza traduzida em formatação estrutural. Reforma é a simplicidade da essência vencendo complexidades anacrônicas. Acréscimos institucionais de funções ou status eclesiásticos pouco ou nada contribuirão para a infusão de vida desejada pelo movimento do povo de Deus. 
 
Repensar a igreja a partir da Reforma é revermos a nós mesmos/as: nossas origens, sentido, propósito, motivo, relações e práticas. De onde viemos? Onde estamos? Para onde vamos? Antes e depois de tudo, é redescobrir as essências, confiar no Senhor e no Seu Espírito, deixando que surja um novo consenso quanto a ser igreja bíblica e missional hoje: trinitária, encarnada, leiga, simples, servidora e relevante. 
 
Veja Também!
 
Clamores pela Reforma!

Tags: Expositor Cristão, Reforma,


Posts relacionados

Destaques Nacionais, Colégio Episcopal, por José Geraldo Magalhães

Membro do Comitê Permanente de Consenso e Colaboração do CMI envia relatório ao Colégio Episcopal

Eleita em 2006 para integrar o Comitê Permanente de Consenso e Colaboração do Conselho Mundial de Igrejas (CMI), Magali do Nacimento Cunha, envia relatório das atividades desenvolvidas ao Colégio Episcopal da Igreja Metodista. Em reunião do Comitê Central reunido em julho de 2014, Magali foi eleita membro da Comissão Fé e Ordem do CMI. 

Expositor Cristão, Destaques Nacionais, Discipulado, Expansão Missionária, Mídia, Colégio Episcopal, por José Geraldo Magalhães

Liderança Episcopal planeja avanço do metodismo no continente

Discipulado, plantação de igrejas e expansão missionária são prioridades.