Publicado por José Geraldo Magalhães em Geral - 13/09/2013

Bonhoeffer

Havia um homem rico que se vestia de púrpura e linho fino e que fazia diariamente brilhantes festins. Um pobre chamado Lázaro jazia coberto de úlceras no pórtico de sua casa. Ele bem quisera saciar-se do que caía da mesa do rico, mas eram antes os cães que vinham lamber suas úlceras. O pobre morreu e foi levado pelos anjos para um lugar de honra junto de Abraão. O rico morreu também e foi enterrado. Na morada dos mortos, em meio às torturas, ergueu os olhos e viu de longe Abraão com Lázaro a seu lado. Ele exclamou: "Abraão, meu pai, tem compaixão de mim e manda que Lázaro venha molhar a ponta do dedo na água para me refrescar a língua, pois eu sofro um suplício nestas chamas". Abraão lhe disse: "Meu filho, lembra-te de que recebeste tua felicidade durante a vida, como Lázaro, a infelicidade. E agora, ele encontra aqui a consolação, e tu, o sofrimento. Lucas 16.19-25.

 

Nunca podem os entender e pregar o Evangelho de uma maneira palpável demais. A pregação evangélica correta deve ser como uma bela maçã oferecida a uma criança ou um copo de água fresca oferecida a um sedento, com a pergunta: Você quer? Assim deveríamos falar das coisas da nossa fé, de modo que as mãos se estendessem mais depressa do que nós as pudéssemos encher. Então, as pessoas deveriam correr e não sossegar quando se falasse do Evangelho, assim como os doentes corriam ao encontro de Jesus, que ia de lugar em lugar curando, querendo ser curados a qualquer custo (mas o próprio Cristo curava mais do que convertia). Não se trata apenas de uma maneira de falar.
Pois não deveria ser mesmo assim nos lugares em que é pregada a boa-nova? Mas, de fato, não é assim. Todos sabemos que não é. E no entanto não deveríamos contentar-nos com isso, como se tivesse de ser assim.

Uma das razões - apenas uma! - é porque simplesmente evitamos apresentar o Evangelho de maneira tão palpável, tão vivencial, como ele é na verdade. Intelectualizamos o Evangelho, isto é, nós o aliviamos, o modificamos. Vejam, por exemplo, esse evangelho do homem rico e do pobre Lázaro. Passou a ser costume em toda essa história apenas o sentido de que os ricos devem ajudar os pobres. Em outras palavras, nós a transformamos num exemplo moralizante. Mas, se deixarmos essa história agir sobre nós com sua pujança original, veremos que ela não é nada disso. Trata-se pura e simplesmente do anúncio palpável da própria boa nova. É verdade, de uma forma tão palpável e compacta que deixemos de levá-la a sério.
Imaginemos aquela multidão de doentes, pobres, miseráveis, pobres Lázaros, reunidos ao redor de Cristo, e ele começando a contar essa história do pobre Lázaro leproso, sentado na porta do homem rico, indefeso até mesmo contra as investidas da cachorrada. E imaginemos aquele momento em que a história começa a virar, com as palavras: "O pobre morreu e foi levado pelos anjos para um lugar de honra junto de Abraão. Lázaro foi maltratado em sua vida, mas agora receberá o consolo". Certamente ouviram-se gritos de alegria e de esperança no meio da multidão. Essa era a boa-nova, era a água fresca procurada com sofreguidão. Era o amor do próprio Deus que se dirigia aos pobres e miseráveis nessas palavras. Vocês marginalizados, discriminados, pobres e doentes, vocês desprezados, vocês serão consolados. (...)
Esse é o Evangelho da boa-nova do início de um novo mundo e de uma nova ordem de Deus. Os surdos ouvem, os cegos recuperam a vista, os coxos andam direito e a boa-nova é anunciada aos pobres (Lucas 7.22). (...)
Você é feliz, Lázaro pobre, marginalizado, leproso, ontem como hoje, porque você tem um Deus. Ai de você que está desfrutando os prazeres da vida e é respeitado, ontem como hoje. É a boa-nova de Deus para os pobres, anunciada de uma maneira concretíssima.
Mas antes de continuarmos devemos dar ouvidos também a toda série de objeções indignadas.
Em nosso meio há sempre aqueles que sabem melhor do que o próprio Novo Testamento o que Novo testamento pode querer dizer ou o que não. O que acabamos de apresentar seria uma interpretação grosseira do Novo Testamento, destinada ao povo rude. Não pode ser esse o sentido das palavras. Aquilo que, no Novo Testamento, soa mais ou menos do modo que acabamos de exemplificar precisa ser espiritualizado. Chamamos isso de "sublimação", isto é, de refinamento, enobrecimento, espiritualização, moralização. Não seriam simplesmente os externamente pobres os felicitados, nem os externamente ricos os condenados. O importante seria sempre a atitude assumida diante da pobreza e da riqueza. O exterior não teria nenhuma importância, e sim a intenção: rico em Deus ou, respectivamente, pobre em Deus... O perigo dessa objeção está no fato de ela conter um grão de verdade. Sabemos, no entanto, que sua verdadeira finalidade é desculpar-nos. Como é fácil fugir das assim chamadas exterioridades para as intencionalidades: ser rico externamente, mas ser pobre na assim chamada intenção. Seria tão fácil afirmar uma atitude vigorosa na interpretação do Evangelho nesses termos, como se tratasse de pobreza e riqueza externas, quando na verdade interessaria apenas ao aspecto interno. Mostrem-me, então, onde, na história do pobre Lázaro, se diz alguma coisa a respeito de seu interior. Quem disse que ele foi um homem que interiormente nutria uma atitude correta em relação à sua pobreza? Pelo contrário, pode até ser que ele tenha sido um pobre importuno, já que ficava na porta do rico e não ia embora. E quem nos diz algo a respeito da alma do rico? Esse é justamente o aspecto aterrador da história: não há moralização. Fala-se simplesmente de rico e pobre, da promessa e da ameaça para um e outro. Parece que essas exterioridades aqui não são vistas como tais, pelo contrário, são levadas muito a sério. Por que Cristo teria curado os doentes e miseráveis, se não ligava para o aspecto exterior? Por que o Reino de Deus corresponde a fatos como: surdos ouvem, cegos recuperam a vista (Lucas 7.22)?...De onde vem essa arrogância incrível de querer espiritualizar as coisas que Cristo viu e fez de maneira bem palpável?

 

Está na hora de colocar um ponto final nesta espiritualização despudorada e hipócrita do Evangelho. Tomem-no como ele é, ou odeiem-no sinceramente!
Esse ódio realmente não lhe faltou, justamente porque o Evangelho era visto com a singeleza que lhe é própria. O ódio veio de dois lados diferentes.
Em que nos interessa um evangelho trazido para os fracos, plebeus, pobres e doentes? Somos homens saudáveis e fortes. Desprezamos a multidão dos Lázaros. Desprezamos o Evangelho dos pobres. Ele perverte nosso orgulho, nossa raça, nossa força. Somos ricos, sim, com muito orgulho. É uma maneira sincera de falar, certamente. Mas ao mesmo tempo é um discurso extremamente leviano e cheio de ilusões. Afinal, é tão simples desprezar a multidão dos Lázaros!

Mas se um único deles se coloca à sua frente, o Lázaro desempregado, o Lázaro acidentado, o Lázaro arruinado por sua culpa, seu próprio filho como Lázaro pedinte, a mãe desamparada e desesperada, o Lázaro que se tornou criminoso, o Lázaro ateu, você seria capaz de enfrentar um indivíduo desses dizendo: Eu o desprezo, Lázaro? Eu zombo da mensagem que o faz alegre. Você seria realmente capaz de dizer isso? Mas, se você não o consegue, por que faz como se fosse uma grande coisa poder ser assim?
Ou seria até mesmo um escárnio em si mesmo consolar com a perspectiva de um futuro melhor num outro mundo aqueles que aqui vivem na miséria e na desgraça? Não se tem a impressão que por detrás disso se esconde apenas a intenção de querer impedir de que esses infelizes se revoltem contra seu destino? Chamando-os de bem-aventurados para que fiquem quietos onde estão, sem importunar os outros? Não é uma atitude cínica falar em consolação celeste quando não se quer dar consolo aqui na terra? O Evangelho não serviria, na verdade, como engodo para a estupidificação do povo? Não se vê, no fundo, que a miséria não é levada a sério, e que os cínicos usam os chavões religiosos apenas para esconder-se por trás deles? Ah, inúmeras vezes aconteceu exatamente isso, até em nossos dias. Quem ousaria negá-lo? Mas um olhar para o Evangelho revela que não é isto que está escrito. Cristo chama os pobres de bem-aventurados (Lucas 6.20); mas também os cura, já nesta vida. Sim, o Reino de Deus está presente porque os cegos enxergam e os coxos andam (Lucas 7.22). Ele leva a miséria tão a sério que precisa destruí-la no mesmo instante. Onde Cristo está, o poder dos demônios precisa ser quebrado. Por isso ele cura e diz aos seus discípulos: Se crerdes em mim, fareis até obras maiores do que eu faço (Jo 14.12). O Reino de Deus ainda está no começo. As curas são uma espécie de clarões, como que relâmpagos vindos do mundo novo. Mas, então, a boa-nova já se torna mais poderosa. Felizes vós que agora chorais, haveis de rir; vós que agora tendes fome, sereis saciados (Lucas 6.21). Não se trata de um consolo cínico, e sim de uma grande esperança: o mundo novo, a boa-nova, o Deus misericordioso, Lázaro em companhia de Abraão, os pobres e marginalizados juntos de Deus - pode parecer tudo muito ingênuo e palpável. E se mesmo assim for verdade? Se é verdade? Continua sendo ingenuidade? Continua sendo não-espiritual? Não seria o caso de abrir bem os ouvidos e ouvir novamente a mensagem desse acontecimento inaudito, que Lázaro é levado pelos anjos - tanto ontem como hoje - para a companhia de Abraão? E que o saciado, o satisfeito, aquele que vivia os prazeres da vida, que o homem rico tem de sofrer sede eterna?
Até hoje falamos de ambos como se um não tivesse nada a ver com o outro. Certamente não é assim. Lázaro jaz à porta do rico, e só a pobreza de Lázaro faz com que o rico seja rico, assim como a riqueza do outro faz com que Lázaro seja pobre. Não se diz o que o rico e o que o pobre fizeram e o que não deveriam ter feito; o único acontecimento comum que atinge ambos igualmente é a morte. Essa é a luz estranha que ilumina os dois homens: ambos têm de morrer e por ambos espera uma vida nova. Esse fato os liga mais do que qualquer lei moral prescrevendo que o rico deve ajudar o pobre. No fundo, ambos já estão ligados um ao outro pelo destino comum que os aguarda. Na morte, o rico deixa de ser rico e o pobre deixa de ser pobre.Eles passam a ser iguais e uma coisa só. (...)
Por fim ficam as perguntas: Quem é Lázaro? Quem é o homem rico? E, finalmente, o que o homem rico deve fazer então?
Quem é Lázaro? Você mesmo sabe quem é: o seu irmão mais pobre, que não consegue dar conta de sua vida nem externa nem internamente, que se mostra muitas vezes tolo, impertinente, importuno, ímpio, e que mesmo assim é infinitamente carente e sofredor, mesmo que não se dê conta disso, que pede as migalhas de sua mesa. Talvez pense, um tanto lastimoso, que Lázaro é você mesmo. Só Deus sabe se você é. Mas não deixe de perguntar de vez em quando se você não poderia ser também o homem rico. Quem é Lázaro? É sempre o outro, o próprio Cristo crucificado que cruza o seu caminho sob mil formas desprezíveis. Sim, é ele próprio o eterno Lázaro.
Mas é necessário perguntar mais uma vez: Quem é Lázaro? Com toda a modéstia precisamos considerar, por fim, uma última possibilidade que surge no contorno de todas as possibilidades humanas e divinas: nós todos somos Lázaros diante de Deus. Mesmo o homem rico é um Lázaro. Diante de Deus, é ele o pobre leproso. Só quando descobrimos que somos todos Lázaros, porque vivemos da graça de Deus, passamos a enxergar Lázaro em nosso irmão.
E quem é o homem rico? Nossa história não responde a essa pergunta. Certamente, não somos ricos. Não estamos saciados e satisfeitos. Não desprezamos os prazeres dessa vida. Será mesmo? Está falando sério? Mesmo depois de encontrar Lázaro pela frente? Ou você não o encontra? Será mesmo que não somos nós o homem rico? Há uma outra história que responde a essa pergunta. É a história do jovem rico que era muito religioso e muito justo, mas que se retirou, triste, quando devia abandonar seus bens (Mateus 19.16-22). Esse é o homem rico. E nós?
E agora: o que o homem rico deve fazer? A resposta a essa pergunta está na história do bom samaritano (Lucas 10.25-37). Na nossa história só está escrito que o homem rico deve perceber que por trás dele e de Lázaro está a morte, e que por traz de Lázaro está o próprio Deus, Cristo, e a eterna boa-nova. É para abrirmos os olhos, para que enxerguemos o pobre Lázaro em toda a sua desolação repulsiva e, por trás dele, Cristo que o convidou para a sua ceia o chama de bem-aventurado. Torne-se visível, pobre Lázaro, torne-se visível, Cristo no pobre Lázaro! Ah, que nossos olhos aprendam a enxergar!

Dietrich Bonhoeffer (no livro A resposta às nossas perguntas. Reflexões sobre a Bíblia. Ed. Loyola, São Paulo, 2008. pg.31-41.)
Crédito das imagens: Rich in hell/Christian Dale e The good Samaritan/Vincent van Googh-1890

Veja também:
Sobre a vida de Bonhoeffer


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