Publicado por José Geraldo Magalhães em Geral - 20/09/2013

comentários palestra Crossan

Claudio de Oliveira Ribeiro[1]

Minhas impressões partem de um ponto de vista bastante específico: o de alguém que trabalha na formação de futuros pastores, pastoras e lideranças de diferentes igrejas. Dr. Crossan, ao lecionar cristologia, temos utilizado e recomendado as suas obras. Uma parcela do grupo de estudantes tem visto de forma extremamente positiva a sua contribuição em compreender mais adequadamente a historicidade de Jesus. Em várias pesquisas de iniciação científica ou trabalhos de conclusão de curso encontramos o ?dedo? de Crossam, abrindo horizontes para conhecermos melhor o Jesus Histórico.

Outros estudantes não aceitam bem as suas idéias. Consideram que Jesus está sendo apresentado de forma "muito humana", "horizontal demais" e isso "destrói a fé", "elimina a espiritualidade". Qual desses dois grupos, a meu ver, estaria certo?

Penso que, de certa forma, os dois grupos estão certos. O segundo - que pensa que afirmar a dimensão humana e histórica de Jesus constitui ameaça a fé - está correto. Talvez não seja ameaça à fé cristã, mas a fé religiosa que eles possuem. Porque, de fato, boa parte das experiências religiosas de hoje não levam em conta a "a importância do lago de Tiberíades", como nos mostrou Dr. Crossan. Ou seja, não estão firmadas nas questões mais tensas e complexas da vida humana, especialmente nas condições econômicas e políticas que geram o sofrimento, a dor e a morte de massas consideráveis da população do nosso País. Essa fé, mais intimista, vai morrer quando chegar mais perto do ?Jesus Histórico?.

O primeiro grupo, no qual também me incluo, no caso como docente, procura ter como ponto de partida de suas reflexões a afirmação histórica de Jesus, homem judeu do século I. Isso é fundamental. Mas, não param por aí. Buscam a espiritualidade em uma "ascendência". Em primeiro lugar com o significado religioso atribuído a Jesus - Ele como Cristo (o Messias, o Ungido) - e, posteriormente, com uma interpretação teológica do significado histórico-teológico de Jesus Cristo para a atualidade. Ou seja, colocar-se no caminho de Jesus, doar a vida como ele doou, não obstante nossas contradições e seguranças pessoais. Aí está o lado divino que todos desejam ...

A maior parte de nossos estudantes é oriunda de comunidades muitos pobres de diferentes partes do nosso País. Portanto, conhecem bem de perto os "mercantilizadores do lago e dos peixes" dos dias de hoje. A maior parte trabalha intensamente em comunidades empobrecidas nas periferias de São Paulo e da Região do ABC, onde esta universidade está inserida. São participantes de igrejas metodistas, pentecostais, católicas e outras. Alguns trabalham com crianças e adolescentes que vivem nas ruas. Por isso, reconhecem que a humanidade de Jesus é um fato concreto para o fortalecimento da fé da comunidade. Reconhecem também que o caminho teológico e pastoral que parte da existência histórica de Jesus possibilita ao ser humano melhor compreensão de si mesmo, de sua fé e melhor identificação com Deus. Com isso, as pessoas podem tornar-se mais humanas e acessíveis à pregação do Reino de Deus, possibilitando para as igrejas uma prática libertadora. Obrigado, Dr. Crossan, por nos lembrar, mais uma vez, que "Jesus, em nome do Deus de Israel, ?bateu de frente? [clashed] com o projeto comercial [desumano e cruel] de Antipas estabelecido em nome do Império Romano?.

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Sabemos que o campo específico da cristologia tem ganhado vitalidade e destaque. No contexto teológico latino-americano, ainda nos anos de 1970, a obra Jesus Cristo Libertador (1972), de Leonardo Boff foi destaque, e ocupou inclusive o espaço eclesiástico-institucional para avaliações e questionamentos. Em certo sentido, o debate volta à tona, nesse ano de 2007, com a notificação da Congregação para a Doutrina da Fé da Igreja Católica Romana em relação às obras de Jon Sobrinho Jesus, o Libertador - A História de Jesus de Nazaré (1991) e A Fé em Jesus Cristo: ensaio a partir das vítimas (1999).

Com esses autores, e em consonância com a perspectiva teológica ecumênica, afirmamos que uma reflexão bíblico-teológica sobre Cristo é fundamentalmente necessária para que se possa discernir, o mais adequadamente possível, qual é a vontade de Deus para a humanidade hoje. Para nós, a identidade e a relevância da cristologia se dá basicamente a partir da seguinte questão - crucial para nós -: ?como reconhecer o amor de Deus por intermédio da vida de Jesus de Nazaré??

Por isso, temos procurado dialogar também com Jürgen Moltmann, especialmente com as suas obras O Caminho de Jesus Cristo (1989) e Quem é Jesus Cristo para nós Hoje? (1994). Ao lado dessas obras, os olhos de alguns brilham [de satisfação ou de temor] com as idéias de Jesus, Símbolo de Deus (1999), de Roger Haight - também sob notificação da Congregação para a Doutrina da Fé - e da A Metáfora do Deus Encarnado (1993), de John Hick. As perspectivas teológicas desses autores, especialmente os latino-americanos, juntamente com as obras de Crossam, como já referido, formam um quadro teórico consistente e considero que constituem uma contribuição valiosíssima para a prática pastoral e para uma atuação mais eficaz das pessoas no mundo.

Gostaria, então, de destacar a observação do Dr. Crossam sobre a necessidade de se buscar a matriz (matrix) e não um mero pano de fundo (background) para a vida de Jesus. Ou seja, algo que seja "interativo e recíproco", que transforme a nossa visão, mas que seja também transformada por nossa experiência.

Seguindo Jon Sobrino e outros daqui, devemos falar de nossa fé em Jesus a partir das vítimas. [talvez seja essa a razão dos ?chefes? da igreja não gostarem desse teólogo]. Esse exercício não deve nos levar a olhar para as pessoas como "pobrezinhas", vítimas incapazes. Consideramos que a novidade do Evangelho mobilizou diferentes pessoas e grupos. Ela baseava-se no fascínio e na força existencial que Jesus exercia sobre eles. Isto garantiu possibilidade histórica à fé cristã, e manteve-se substancialmente relevante a partir da memória dos primeiros discípulos. A alegria da convivência fraterna com Jesus, somada ao pesar da ausência dele após a morte, formou um núcleo fundante de lembranças de uma fé ativa e solidária. Jesus revelou-se como um "homem da liberdade", cuja soberania não esteve a favor de proveitos próprios, mas em benefício dos demais, como expressão do amor livre de Deus pelos seres humanos. Nesse sentido, entendemos também o quê o Dr. Crossam indicou "não é que nós estejamos esperando por Deus, é Ele que está esperando por nós. O Reino presente é um eschaton colaborativo entre os mundos humano e divino". Nossa matriz para seguirmos a Jesus, o Cristo, tem sofrimento e tem dor, mas tem alegria e festa; tem falta de perspectivas e imobilismo diante das políticas econômicas mundiais e do individualismo crescente, mas tem muitas pequenas formas de solidariedade, de esforço comunitário e de criatividade. Isso tudo é de Deus e ao mesmo tempo é do ser humano.

Ainda bem que "Jesus olhou e aprendeu" com o que ocorreu com João Batista, a ponto de "estabelecer uma estratégia diferente da dele". Humano esse Jesus, não é? Observou a realidade ao seu redor, com responsabilidade e temor diante de Deus, aprendeu e percebeu que ele não podia ter o "monopólio" do Reino. Ele era o caminho. Como nos disse Dr. Crossan: "Jesus não teve apenas uma visão ou uma teoria mas, uma práxis e um programa - não para ele mesmo, mas para outros também". È isso que estamos tentando fazer aqui em nossas terras.

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Obrigado Dr. Crossan por nos mostrar um caminho para conhecer melhor Jesus ao mostrar que ele estava sempre à beira-mar porque lá os conflitos econômicos afetavam os mais pobres uma vez que, como nos foi dito, "eles não podiam mais lançar livremente suas redes ao mar. Não podiam ter seus próprios barcos.. . sem taxações e impostos". Teologia & Economia: esse tem sido um dos grandes desafios de nossa reflexão teológica. Em conexão com o contexto e o pensamento latino-americanos de uma ?teologia da vida?, Franz Hinkelammert já nos indicava As Armas Ideológicas da Morte (1981). Com ele, o teólogo brasileiro Hugo Assmann denunciava A Idolatria do Mercado (1989). Da mesma forma, o uruguaio Julio de Santa Ana também fazia a "Crítica Teológica à Economia Política", com o seu livro O Amor e as Paixões (1989). È fato, que são muitas as limitações em nosso contexto latino-americano para uma compreensão mais apurada da complexidade que a economia traz para a vida e para o campo teológico. Embora seja também verdade que tal limite começou a ser superado quando Jung Mo Sung, professor dessa casa, identificou, com maior precisão, certa "anomalia no paradigma da Teologia da Libertação", uma vez que essa destacava as dominações sociais que geravam pobreza, mas não compreendia muito bem o fascínio que as formas de consumo exerce sobre as pessoas pobres. De lá para cá, muito se tem avançado nessas reflexões e a interpelação do Dr. Crossan é valiosa para ?nos ajudar a ajudar? as pessoas, especialmente as mais pobres, a identificarem Jesus dentro ou ao lado de ?seus barcos?.



[1] Doutor em Teologia pela Pontifícia Universidade Católica-RJ. Trabalha como professor de Teologia Sistemática da Universidade Metodista de São Paulo e como pastor na comunidade de Jardim Santo André, Santo André-SP.

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E você? Assistiu à palestra? Leu o texto no site? O que acha desse estudo do teólogo Crossan sobre o Jesus Histórico?

 


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