Publicado por José Geraldo Magalhães em Geral - 20/09/2013

Palavra Episcopal julho 2006

 

Paulo Lockmann, Bispo da 1ª Região Eclesiástica

"No ano da morte do Rei Uzias..." Esta referência história do profeta é a primeira das visões que ele recebe de Deus: a história do seu povo. Esta frase é um convite a um engajamento na vida do seu povo. Isaías começa seu ministério tendo uma visão espiritual que, longe de tirá-lo do mundo, o reenvia ao mundo.

As mensagens de Isaías são centradas em torno de três dimensões da visão que Deus lhe dá:

1) a visão de Deus; 2) a visão de si mesmo e do seu povo; 3) a visão do Deus que perdoa e envia

1. A visão de Deus

A proximidade de Deus junto à sua imensa transcendência: tal paradoxo é a marca dessa visão de Isaías. Deus está tão próximo que ele diz: "Eu vi o Senhor." Diferentemente de Moisés, que vê a sarça arder e não se consumir, ou vê Deus pelas costas, em Isaías Deus está tão próximo que quase pode ser tocado. Não é à toa ser esta passagem a de abertura da sessão do livro do Emanuel (cf. Is 7.9), que significa, como sabemos, "Deus conosco". Deus é transcendente, ou seja, supera tudo o que podemos ver e imaginar, mas, ao mesmo tempo, é tão próximo. Deus quer ser percebido.

A visão de Isaías sublinha a transcendência e, ao mesmo tempo, a proximidade de Deus e a sua santidade - Ele não compactua com o pecado do ser humano. A santidade de Deus sintetiza os atributos de Deus que Paulo descreve nos frutos do Espírito, em Gálatas 5.22. Nós gostamos de afirmar atributos como poderoso, fiel, justo, etc... Mas, sem dúvida, o que está descrito pelo apóstolo Paulo são características de Deus que o tornam desejável e próximo de nós. Sim, Deus é acima de tudo AMOR; a maior evidência de sua santidade é o amor. Os profetas foram servos que denunciavam o afastamento do povo de Deus, mas, também, o convite à reconciliação com Deus. Deus é Santo porque se aproxima em amor para nos reconciliar com Ele.

2. A visão de si mesmo e de seu povo

Isaías experimentou o que nós podemos experimentar: a presença de Deus. Buscar a presença de Deus nos faz sentir e perceber que Deus é Santo, e nós somos pecadores. Como subsistiremos perante a face do Senhor? Isaías reagiu diante deste confronto não saindo da terra, não entrando num transe místico, mas olhando para si e para seu povo. Por isso disse: "...ai de mim! Estou perdido!.." (Is 6.5). Aqui, fica claro que a proximidade de Deus acentua e toca a nossa consciência de pecador, e os lábios são o símbolo de tudo de mal que maquinamos em nossa mente. Tramamos e executamos, tudo isso transita por nossos lábios. A visão de Deus aprofunda, em Isaías, a visão de si mesmo, de seu pecado. Muitos cristãos, quando dão lugar ao pecado, deixam de orar e ler a Bíblia, porque estes atos de piedade cristã nos aproximam de Deus, aguçam a nossa visão de quão pecadores somos. Junto a isso, acentua-se a visão do mundo à nossa volta. A visão de Deus é comprometedora, ela nos põe na história do nosso povo, nos torna mais sensíveis a ver o que se passa ao nosso redor. Essa visão pode ser desdobrada em:

a) A corrupção da religião.

Quando abrimos o livro de Isaías, encontramos uma crítica severa à religião de Israel, uma religião que, embora tivesse ritos religiosos que falavam de Deus, deixavam seus ensinos totalmente ausentes: "De que me serve a multidão de vossos sacrifícios?, diz o Senhor. Não posso suportar iniqüidade associada ao ajuntamento solene." (Is 1.11-13).

Na expressão "... não posso suportar iniqüidade", o culto judeu é chamado de ajuntamento solene, porque Deus dele não se agradava, por vários motivos: "...mãos cheias de sangue..." Isto poderia indicar a traição que Judá fez ao romper com israelitas do norte, fazendo aliança com a Assíria, o que teria facilitado a queda de Samaria, segundo alguns exegetas; o sangue dos irmãos; ou, mesmo, a maneira com que os poderosos cobravam dos mais pobres seus direitos; "...cessai de fazer o mal..." Com certeza aqui está a ausência do ensino da leitura da Palavra de Deus, da prática da justiça, dos princípios do ano sabático, do ano do Jubileu, etc... ; "...repreendei ao opressor, defendei o direito do órfão, pleiteai a causa da viúva..." Aqui, além de apelo ao cumprimento da lei de Deus, exorta-se que publicamente fosse condenado o opressor. Em Israel, como ainda hoje, convivia-se com naturalidade com a opressão. (cf. Is 3.14). Freqüentemente, seguimos convivendo com todos esses pecados, o que nos faz também povo de lábios impuros. Hoje, cantamos, lemos a Bíblia, sem necessariamente nos posicionarmos com atos e palavras contra o opressor, em defesa do órfão e da viúva. Assim, corremos o risco de celebrarmos assembléias solenes, e não culto.

b) A corrupção dos governantes

Do mesmo modo que a classe religiosa, que presidia assembléias solenes, Isaías denuncia os dirigentes de Israel e o povo, dizendo: "Ouvi ..., governadores de Sodoma; ...à lei do nosso Deus, ó povo de Gomorra." (Is 1.10)"Os teus príncipes são rebeldes, e companheiros de ladrões..." (Is 1.23). Não preciso dizer que o rei era conivente com as classes dominantes em Israel. Havia um acordo iníquo entre o rei e os diversos dirigentes do povo, inclusive o sacerdócio. Isaías vê isso, e é levantado por Deus para denunciar esse estado de coisas. Aqui, uma sucessão de denúncias aponta que alguns faziam acordos com pessoas e povos não tementes a Deus, tudo para lucrar. A idolatria se perpetuava, junto com a exploração dos mais pobres, dos órfãos e das viúvas, ou seja, a corrupção transitava do religioso para a vida social, econômica e política (cf. Is 3.14-15). Vivemos isto no nosso cotidiano; o neoliberalismo econômico estabelece critérios que se reputam por verdade, e que estão condenando nações do 3º mundo a uma miséria crescente. A Argentina está com 22% de desempregados, o Brasil assiste um aumento da miséria nos últimos 10 anos, isto tudo em prol da lógica dos modelos econômicos do primeiro mundo.

3. A visão de Deus que perdoa e envia

Quando Isaías reconhece seu pecado e o de seu povo, ele faz, certamente, uma confissão humilde diante de Deus, reconhecendo o seu pecado e o de sua nação. A resposta a esta contrição é imediata, e descrita assim: "A brasa tocou a minha boca..., a tua iniqüidade foi tirada, e perdoado o teu pecado." (Is 6.6-7). Aqui está a grande mensagem: todas as manifestações de Deus visam à redenção do servo de Deus e de seu povo. Deus não se alegra com a destruição do pecador. Deus é amoroso e misericordioso. No Novo Testamento, Deus não é repentinamente percebido em vários atos de aliança, mas manifestou-se definitivamente por meio de seu filho Jesus Cristo, o qual quer atrair para Ele toda a criação. (cf. Rm 8.19-21), trazendo perdão, justiça e reconciliação.

O reconhecimento do pecado e sua confissão deixam-nos aptos a ouvir Deus. Servos e servas perdoados, desfrutamos da sua comunhão em verdade, recebendo de Deus um desafio: quem tem uma visão de Deus, uma visão de si mesmo e do povo, é confrontado com a visão da missão, que chega a ele pela voz de Deus: Ouvi a voz do Senhor, que dizia: A quem enviarei? Então, disse eu: Eis-me aqui, envia-me a mim." (Is 6.8). Assim, ao ouvir a pergunta, convite de Deus, o servo(a) sabe a resposta e diz: "Eis-me aqui, envia-me a mim."


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