Publicado por José Geraldo Magalhães em Geral - 13/09/2013

Palavra Episcopal julho 2008

Diretrizes para a vida financeira do cristão e da cristã Metodistas.

 

Adonias Pereira do Lago - Bispo na 5ª Região Eclesiástica

Falar sobre a questão financeira no contexto cristão é um grande desafio. O presente tema é de extrema complexidade em função da lógica capitalista e individualista que determinam as diversas relações sociais e não seria diferente nas relações circunscritas aos espaços eclesiásticos. Muitas práticas forjadas na cultura da época são facilmente reproduzidas nos espaços das nossas igrejas.

Uma vez que estamos num contexto social em que predomina a mercantilização da fé, fundamentada na teologia da prosperidade, que coloca o/a fiel como investidores cuja ênfase está na saúde plena, na prosperidade irrestrita e valorização do eu, com certeza falar na questão financeira requer muito cuidado e base bíblico-teológica sólida.

No entanto, a problemática apresentada pelo referido tema não pode ser tomada como fator impulsionador para referendar o exercício de uma prática de fé distanciada do compromisso financeiro e social, inerente a todo/a cristão/ã que busca realizar a vontade de Deus em todos os aspectos da sua vida.

Tenho consciência da seriedade do assunto e dos desafios que enfrentamos nesta área, por isto tomo como referência para falar sobre o assunto, o resgate, praticamente integral, de um artigo adaptado por Charles Edward White, na Revista "Leadership", publicada em 1987. O texto mostra, de forma clara e brilhante, o testemunho da Graça de Deus sobre a vida financeira de João Wesley. O artigo traz questões fundamentais, com princípios bem simples, porém eficazes para a nossa reflexão e aplicação prática.

Em pleno século 18, João Wesley foi usado por Deus para restaurar a Inglaterra e dar início à Igreja Metodista. Nós o conhecemos como um grande pregador e um notável organizador, mas poucos sabem que João Wesley escreveu uma quantidade imensa de sermões e que a venda dos seus escritos o tornaria uma das pessoas bem sucedidas economicamente falando, na Inglaterra. Numa época em que um homem solteiro poderia viver confortavelmente com 30 libras (moeda inglesa), por ano, sua renda anual atingiu a 1.400 libras. No entanto, a partir de sua experiência com Deus, ele estabelece uma forma diferente de lidar com a sua questão financeira. Com sua renda, ele teve oportunidade de colocar em prática suas idéias a respeito do dinheiro. Isto é o que veremos a seguir.

Resgatando um pouco a história

João Wesley soube conviver com a pobreza desde criança. Seu pai, Samuel Wesley, foi pastor anglicano em uma das paróquias mais pobres da Inglaterra. Tinha nove filhos para criar e, muitas vezes, tinha dívidas para pagar. Certa vez, João Wesley viu seu pai sendo levado preso por falta de pagamento de uma dívida. Assim, quando Wesley seguiu os passos do pai no ministério, não tinha ilusões acerca de recompensas financeiras.

Foi, provavelmente, surpreendente para João Wesley, ao ser chamado por Deus para seguir a vocação de seu pai, não passar pelas mesmas dificuldades econômicas pelas quais ele passara. Ao invés de tornar-se pregador em uma paróquia, Wesley sentiu a direção de Deus para lecionar na Oxford University. Lá, ele foi eleito membro do Conselho do Lincoln College e sua condição financeira mudou extraordinariamente. Sua posição usualmente lhe rendia 30 libras por ano, mais que o necessário para um homem solteiro viver. E João Wesley parece ter apreciado sua relativa prosperidade, pois gastava seu dinheiro em jogo de cartas, fumo e bebidas.

Durante sua estada em Oxford, um incidente mudou sua visão sobre o dinheiro. Ele havia terminado de adquirir e pagar por alguns quadros que seriam colocados em seu quarto, quando uma das camareiras chegou à sua porta. Era um frio dia de inverno e ele notou que a camareira nada tinha para protegê-la, exceto um gorro de lã fina. Ele enfiou as mãos nos seus bolsos procurando algum dinheiro para dar a ela a fim de que ela pudesse comprar um casaco, mas constatou que lhe sobrara muito pouco. Imediatamente, perplexo, seu pensamento lhe disse que o Senhor não estava satisfeito com a forma como gastava seu dinheiro. Wesley perguntou a si mesmo porque o Senhor diz, "Bem feito, bom e fiel despenseiro?". Deus tem adornado tuas paredes com o dinheiro que poderia ter protegido esta pobre criatura do frio. Justiça! Misericórdia! Não serão estes quadros o sangue desta pobre camareira?

Talvez, como resultado desse incidente, em 1731, Wesley começou a limitar suas despesas de maneira que pudesse ter mais dinheiro para dar aos pobres. Ele recorda que em um ano seus rendimentos foram 30 libras e suas despesas 28 libras, só lhe restando 2 libras para doar. No ano seguinte, sua renda dobrou, mas ele ainda viveu com 28 libras e pôde doar 32 libras aos pobres. No terceiro ano, seus rendimentos subiram para 90 libras, mas ao invés de deixar seus gastos subirem de acordo com os seus ganhos, Wesley os manteve em 28 libras e doou 62 libras. No quarto ano ele recebeu 120 libras. Como antes, seus gastos continuaram em 28 libras e o montante que ele pôde doar cresceu para 92 libras.

Wesley sentiu que o cristão não deveria dar apenas a décima parte, mas doar toda renda extra, desde que a família estivesse bem cuidada e os débitos devidamente quitados. Ele acreditava que o crescimento de sua renda poderia não somente elevar o padrão de vida dos cristãos, mas também elevar o conceito de "dar".

Essa prática começou em Oxford e continuou por toda a sua vida. Mesmo quando seus rendimentos se elevaram para milhares de libras esterlinas, ele viveu com simplicidade e doava o dinheiro que lhe sobrava tão rapidamente quanto possível.

Um ano sua renda foi um pouco superior a 1.400 libras. Ele gastou 30 libras e doou perto de 1.400. Como não tinha família para cuidar, ele não necessitava poupar. João Wesley não estava preocupado em armazenar tesouros na terra e então usava o dinheiro para caridade tão logo o recebia. Ele disse que nunca tivera 100 libras no bolso uma só vez.

Wesley limitou suas despesas não comprando coisas as quais não fossem de absoluta necessidade para o seu padrão de vida. Em 1776, a Comissão de Impostos da Inglaterra inspecionou sua declaração de renda e escreveu o seguinte: "Não podemos duvidar, mas há indícios de que o Senhor possui uma baixela de prata e não fez o devido registro de entrada do dinheiro". Eles estavam dizendo que um homem de sua notoriedade certamente teria que possuir alguma baixela de prata em casa e o estavam acusando de não ter pago o imposto de consumo. Wesley escreveu de volta: "Eu tenho duas colheres de prata em Londres e duas em Bristol. Isto é toda a prataria que eu tenho no momento e eu não poderia comprar nenhuma mais enquanto muitos ao meu redor querem pão".

Os ensinamentos de João Wesley a respeito de dinheiro oferecem simples e práticas diretrizes para todos os crentes.

Sua primeira regra a respeito do dinheiro foi: "Ganhe o máximo que puder". A despeito de seu potencial para o uso indevido, o dinheiro, por isso só, é uma coisa boa. Não há fim para o bem que o dinheiro pode proporcionar: "Nas mãos dos filhos de Deus, o dinheiro é alimento para o faminto, bebida para o sedento, vestuário para o nu. Ele oferece ao viajante e ao estrangeiro um lugar para repousar sua cabeça. Com dinheiro poderemos suprir a falta do marido para a viúva e a falta do pai para o órfão. Podemos ser defensores dos oprimidos, dar condições de saúde para os doentes e aliviar os que sofrem dores. O dinheiro poderá ser os olhos para o cego, os pés para o aleijado: um voto a favor dos que estão à beira da morte!"

Wesley ensinou que os cristãos, ao ganharem o máximo que podem, necessitam ser muito cuidadosos para não destruírem suas próprias almas, mentes e corpos ou a alma, mente e corpo do próximo. Ele também proibiu que os cristãos ganhassem dinheiro através de indústrias que poluem o meio ambiente ou que expõem os seus empregados a riscos. Ganhar sob princípios do reino, não sob pressão do consumismo e do materialismo egoísta de nosso tempo.

A segunda regra de Wesley para o uso correto do dinheiro foi: "Poupe tudo que puder". Ele instigava seus ouvintes a não gastarem dinheiro somente para agradar aos desejos da carne, aos desejos dos olhos ou a vaidade da vida. Alertava quanto ao gasto com comidas caras, roupas chiques e mobílias elegantes. "Despreze o regalo e a variedade e esteja contente com a essência do básico." Wesley tinha duas razões para dizer aos cristãos que comprassem somente o necessário. A primeira, obviamente, era que os cristãos não poderiam esbanjar dinheiro; a segunda, era que os cristãos não deveriam alimentar seus desejos egoístas.

O velho pregador sabiamente chamava a atenção dizendo que quando uma pessoa gasta dinheiro com coisas das quais realmente não necessita, logo começará a querer mais e mais coisas de que não necessita e, ao invés de satisfazer o seu desejo, ela somente o torna maior.

A terceira regra de João Wesley foi: "Doe tudo o que puder". A doação poderá ter início pelo dízimo. Wesley dizia que quem não é dizimista colocará, indubitavelmente, seu coração no seu ouro e advertia, "isso consumirá a sua carne com o fogo".

Para o cristão autêntico o ato de doar não termina com o dízimo, mas todo o seu dinheiro está cem por cento sob a orientação de Deus.

Como Deus tem direcionado os cristãos no uso de seus rendimentos? Wesley enumerou quatro princípios bíblicos essenciais:

I - Abasteça sua família e você mesmo de coisas realmente necessárias (1Tm 5:8). O crente precisa estar seguro de que sua família tem garantido o básico: alimentação saudável, trajes limpos para usar bem, um local para viver e ainda o suficiente para sobreviver se algo inesperado acontecer à pessoa que prove o sustento da família.

II - "Tendo comida e vestimenta, estejamos contentes". (1 Tm 6:8)

"Quem tem comida suficiente e roupas para vestir, com um lugar para repousar sua cabeça e alguma coisa mais é rico", disse Wesley.

III - Abasteça-se de coisas honestas à vista de todos os homens (Rm 12:17) e "Não deva nada a ninguém" (Rm. 13:8). Wesley disse que após cumpridos os primeiros dois princípios, a próxima reivindicação sobre o dinheiro dos cristãos são as dívidas. Ele ensinou também que aqueles que têm negócios por conta própria precisam ter ferramentas adequadas, estoques ou capital suficientes para conduzir os negócios.

IV - "Por isso, enquanto tivermos oportunidades, façamos o bem a todos, especialmente aos da família da fé". (Gl 6:10). Depois que o cristão prover a família, pagar as dívidas e cuidar dos negócios, a próxima obrigação é usar o dinheiro que sobrou para suprir as necessidades dos outros.

Ao pronunciar estes quatro princípios bíblicos e básicos, João Wesley reconheceu que algumas situações não eram claras o suficiente e, conseqüentemente, apresentou quatro perguntas para ajudar seus ouvintes a decidirem como gastar dinheiro:

1. Ao gastar dinheiro estou agindo por mim mesmo ou estou agindo como um mordomo de Deus?

2. O que me ordenam as Escrituras ao gastar dinheiro dessa maneira?

3. Posso eu oferecer esta aquisição/compra como sacrifício para o Senhor?

4. Deus me recompensará por este gasto na ressurreição dos justos?

Em 1744, Wesley escreveu: "Quando eu morrer, se deixar 10 libras você e qualquer ser humano podem testemunhar contra mim, dizendo que eu vivi e morri como um ladrão e um roubador". Quando ele morreu, em 1791, o único dinheiro citado em seu testamento foi uma miscelânea de moedas encontradas em seus bolsos e em suas gavetas de roupas. A maior parte das 30.000 libras que ele ganhou em toda a sua vida ele doou. Da mesma forma ele disse: "Eu não tenho como evitar deixar os meus livros no tempo em que Deus me chamar daqui: mas, em qualquer circunstância, minhas próprias mãos serão minhas testemunhas".

Como vimos, o artigo evidencia que Wesley testemunhou de sua experiência nesta área e deixa para todos nós, metodistas, valores e princípios que valem a pena colocar em prática em nossas vidas. Deus nos chama para uma vida de compromisso. Ele nos convoca a honrá-lo com os nossos bens e com as primícias da nossa renda. Somos desafiados/as a colocarmos tudo o que temos e o que somos à disposição do Reino de Deus. Que a graça de Deus nos ajude a perceber que a maior graça é a da doação ao próximo a favor da vida e de sua dignidade.

Referência

Texto adaptado da Revista "Leadership", inverno de 1987 por Charles Edward White. Tradução: Suleimar Archibald, Membro da Igreja Metodista Central de Goiânia.



Posts relacionados