Publicado por José Geraldo Magalhães em Geral - 14/05/2012

Abolição Inacabada. O que aconteceu no dia 14 de maio de 1888?

A palavra abolição significa, segundo o dicionário Houaiss, ação ou efeito de abolir, total extinção. 13 de maio, dia de “comemorar” a Abolição da Escravatura. Será? O que foi abolido nesse dia no ano de 1888? A pesquisa histórica nos prova que não foi o trabalho escravo.

A famosa Lei Áurea apregoada nos livros didáticos e reforçada no imaginário coletivo pelas novelas televisivas “libertava” homens e mulheres negras, mas não abolia a escravização dos mesmos.

O que aconteceu no dia 14 de maio de 1888? A princesa Isabel sai de cena, no entanto, ficam em torno de  750 mil negros e negras alforriados sem nenhum amparo legal, ou medida protetiva e afirmativa por parte do Estado e das pessoas que detinha o poder, poder esse, sustentado pelo trabalho, até então imprescindível, desses negros e negras.

O que aconteceu no dia 15 de maio de 1888? Era tempo de conseguir moradia, comida e trabalho, era tempo de conseguir sobreviver! As pessoas recém- libertas seguiram para os grandes centros ou se mantiveram nas suas propriedades de origem.

“Não basta extinguir a escravidão, é preciso acabar com a sua obra” disse Joaquim Nabuco, um abolicionista do século passado. A lei foi assinada, mas a obra e os resultados da escravização não foram abolidos.

124 anos depois do dia 13 de maio de 1888, ainda são visíveis os resultados dessa obra: na mesma proporção que aumenta o homicídio de jovens negros (20%), diminui o homicídio de jovens brancos; mulheres negras tem menos acesso ao atendimento médico-ginecológico do que mulheres brancas; meninas negras na escola não recebem o mesmo afeto que as professoras demonstram às meninas brancas. A taxa de analfabetismo da população negra é mais do que o dobro da população branca.

Hoje, oitenta por cento do trabalho escravo rural no Brasil é composto por homens negros, a maioria nordestinos. Ainda há trabalho escravo! Volta e meia esse tema vem à mídia. Antes os escravizados eram negros e negras, hoje outras etnias também figuram nesse cenário: bolivianos, peruanos, pessoas advindas da nossa América Latina; coreanos/as; haitianos; etc.  Homens, mulheres e crianças são escravizadas aqui, no nosso país!

Pessoas não são só traficantes, mas traficadas, o tráfico humano existe e o Brasil se encontra na rota mundial deste tráfico. As principais vítimas? Mulheres e crianças. O principal motivo? A exploração sexual. Diferente dos navios negreiros, elas e eles agora são jogados em outros meios de transporte.

Menos educação, menos oportunidade de trabalho digno, menos acesso à saúde, mais violência. Tudo isso ainda perpassa a população negra brasileira.  

Esse texto não tem a intenção, ainda que algumas pessoas possam assim pensar, de expressar qualquer sentimento pessimista, mas é por acreditar que as coisas podem mudar e é por ver as mudanças que aí já se apresentam, a saber: resultados de um censo cuja população brasileira se declara, em sua maioria negra (pretos e pardos); o recém parecer unânime do STF a respeito da constitucionalidade do sistema de cotas raciais em universidades públicas; a obrigatoriedade do ensino da historia da África e Afro Brasileira na escola; as ações de movimentos sociais diversos na busca da desnaturalização do racismo e de todos os demais tipos de violência e discriminação. Olhar a realidade e diagnosticá-la é condição primordial para mudança.

Em nossa herança cristã e metodista está a não conformidade com todas as formas de injustiça que contribuam para desvalorização humana, em nosso atual Plano Nacional Missionário está o desafio a ação missionária da Igreja no sentido de sua contribuição para a igualdade de oportunidades nos espaços sociais, dando visibilidade a atores sociais até então ignorados, tais como: crianças, mulheres, idosos, pessoas com deficiência, afrodescendentes, etc. Trata-se de agir no sentido da emergência de novos atores sociais e de novas formas de organização social e política que primem pela vivência da cooperação e da solidariedade e pelo compromisso com a coorporeidade humana – buscando condições de uma vida digna e prazerosa para todas as pessoas.

Que o Senhor da Vida nos auxilie a agir em favor da vida e assim permanecer!

Andreia Fernandes e Telma Cezar.
Departamento Nacional de Escola Dominical.


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