Publicado por José Geraldo Magalhães em Geral - 05/03/2011

Deputada apela à preservação da paz

O 2 de Março consta nas datas de celebração nacional da Angola, na África, por ser o dia consagrado à Mulher Angolana. A data é uma homenagem às heroínas Deolinda Rodrigues, Engrácia dos Santos, Irene Cohen, Lucrécia Paim e Teresa Afonso, que segundo dados disponíveis, foram presas em 2 de Março de 1967, quando cumpriam uma missão do então Comité Director do Movimento Popular de Libertação de Angola (MPLA). Não se sabe da data dos seus assassinatos, mas presume-se que tenha sido neste mesmo dia.

Para falar sobre a data, o Jornal de Angola entrevistou a deputada do MPLA Teresa Cohen, para quem o 2 de Março é dedicado não só àquelas heroínas, mas a todas as mulheres desconhecidas que perderam a vida na luta armada de libertação nacional.

Durante a conversa, a deputada defendeu que a data deve servir de reflexão, "para nos lembrarmos de que não queremos mais guerra”.

A entrevista abaixo está na íntegra

Jornal de Angola: Que significado tem, para si, o dia 2 de Março?

Teresa Cohen: Primeiro, lembra o dia em que as nossas camaradas nacionalistas, que lutavam pela independência do país, foram presas e levadas por elementos da UPA/FNLA para a base de Kinkuzo, onde foram violentamente maltratadas e assassinadas. Sabemos a data da prisão, mas não a data em que foram mortas. Para as mulheres da OMA, é um ato que representa, sim, um dia de reflexão. Devia ser, também, um momento de reflexão para todas as mulheres, independentemente do partido, porque, repito, elas foram mortas por elementos da União das Populaões de Angola, Frente Nacional de Libertação de Angola (UPA/FNLA), e não pelos colonialistas portugueses, contra quem lutávamos. Isto prova mais uma vez que, já naquela altura, os ideais do MPLA eram de luta de libertação para todo o povo.

JA: O 2 de Março é uma homenagem à mulher angolana ou às mulheres do MPLA?

TC: É o Dia da Mulher Angolana! É verdade que o partido que estava no poder em 1975 era o MPLA, mas sempre que nos referimos ao 2 de Março de 1967 lembramo-nos também de milhares de heroínas desconhecidas, porque sabemos que morreram muitas mulheres em todo o processo de libertação nacional, independentemente da sua filiação política ou credo religioso. Quem é que não se lembra da Batalha de Kifangondo? Do cerco do Huambo e do Cuito? Só quem tem memória curta não se lembra. Felizmente, temos os nossos escritores que continuam a registar esses factos históricos. Elegemos aquelas cinco mulheres pela forma como foram mortas para nos lembrarmos que não queremos mais guerra.

JA: Mas a data é consensual?

TC: A FNLA nunca teve uma mulher no Parlamento. A UNITA tem agora duas mulheres. Os outros partidos nunca foram capazes de fazer promoção das suas mulheres. Qual é o direito que têm de dizer que o dia 2 de Março não pode ser o Dia da Mulher Angolana? Somos as mais representativas neste momento. Conduzimos todo este processo para se conseguir a paz e a estabilidade. A partir de uma certa altura, não podemos estar sempre a desculpar quem cometeu erros. Um pai chama a atenção ao filho uma, duas, três vezes, mas não eternamente! Esta é a minha opinião, não apenas por ser do MPLA, mas sobretudo porque sou cidadã angolana e, como tal, tenho que olhar e defender aquilo que, em consciência, acho que é melhor para as mulheres.

JA: Que recordações tem das heroínas?

TC: Apenas convivi diretamente com a Irene. Ela saiu de Angola para o maqui, em 1965, para a revolução. Quando o MPLA entrou em Angola, depois do 25 de Abril, a camarada Ruth Lara, esposa do camarada Lúcio Lara, chamou-nos e entregou uma mala onde vinham alguns pertences dela e cartas. Também recebíamos cartas dela, por intermédio do senhor Câmara Pires, que residia em Paris. Havia naquele tempo um correio clandestino. Numa das cartas, ela dizia que iria estar muito perto de nós, mas que não nos veria, que iria continuar a fazer aquilo que era o sonho dela: lutar pela nossa terra. Percebemos que ela muito provavelmente estaria a cumprir uma missão. Mais tarde, tomámos conhecimento do que tinha passado pelos camaradas Kengue e Morais, que estavam no maqui com ela. As informações que tenho da Teresa e da Lucrécia Paim obtive-as através da família, com quem mantenho boas relações. A mãe da Irene, durante muito tempo, ficou bastante magoada. Nem podia ouvir falar da filha, porque na mesma altura em que a Irene é presa, o irmão, o Carlos, perde uma perna, também na guerra. A Irene jogou basquetebol no Clube Atlético de Luanda, era do grupo de Santa Cecília e, juntas, íamos visitar os presos políticos.

JA: A que igreja pertencia o grupo Santa Cecília?

TC: Não era de nenhuma paróquia. Era um grupo que trabalhava sob capa religiosa, tanto que dele faziam parte também camaradas da Igreja Metodista, como a camarada Regina Silva, a enfermeira que era nossa professora de dança. Naquele tempo, o mais importante era distribuir panfletos, visitar presos políticos e ajudar as suas famílias. A este grupo pertenciam muitas mulheres, como as irmãs Belo, as irmãs Pinto de Andrade, as manas Mangueira, a Manuela Novais, a Engrácia Cohen, eu, a Guida, Vitória Lourenço, Judith Sá, Liseth Antas e Maria José Gama. Estou a tentar recordar-me de todas que estavam na última fotografia que tirámos, a Sita Sousa e Silva, a Jolela, que é casada com o comandante Juju, enfim. Tenho fotografias do grupo. Realizávamos várias actividades como passagem de modelos e jograis. Um deles é o “Vozes de África”, de que faziam parte eu, a Irene, a Guida Lourenço e a Sílvia Belo. Naquela altura, aproveitávamos também declamar poemas contestatários, embora não directamente, por causa da PIDE. Naquela altura, tínhamos 17, 18, 19 anos e tínhamos aquele entusiasmo próprio da juventude. Foram os melhores tempos. Depois, a PIDE fechou a Liga Nacional Africana e o grupo desfez-se. A ele também pertenciam a Albina Assis, Maria do Carmo Nascimento e a Emília, esposa do camarada Roberto de Almeida. Espero não me ter esquecido de ninguém. Duas ou três já morreram.

JA: Que opinião tem sobre a participação da mulher na luta de libertação nacional?

TC: A participação foi tão grande que até tivemos mulheres presas, como a camarada Arminda Faria e a Lina Silva. A camarada Arminda destacou-se muito pela sua intervenção social e porque passava informação e facilitava as visitas aos presos políticos.  Alguns médicos portugueses também apoiavam os nossos presos. A camarada Helena Boavida, mulher do camarada Diógenes Boavida, foi também muito participativa. Ela não chegou a ser presa, mas foi interrogada várias vezes. Nós próprias não estivemos presas, mas fomos várias vezes interrogadas pela PIDE na Administração do 2º Bairro. Ficávamos ali o dia todo para nos perguntarem o que era a “Linha Bambu”.

JA: E o que era isso?

TC: As Linhas Bambu eram células que eles (os da PIDE) sabiam que existiam. Mas muitas de nós, embora visitássemos os presos, os mais velhos não nos integravam directamente nestas células. Só se serviam de nós ou para ir levar roupa a um determinado preso ou para levar comida. Muitas de nós não sabíamos se dentro das laranjas que levávamos havia mais qualquer coisa. Isso foi um trabalho de mulheres. É um dos nossos orgulhos! Estou a falar de duas, três, quatro, cinco mulheres, mas outras também participaram. Vimos num filme a camarada Bela, mulher do comandante Kito, que foi ministro do Interior, a atravessar rios em jangaditas e com armas nas costas. Muitas mulheres também fizeram parte da travessia de um morro que se chamava “Cala a boca”. Tinham entre 13 e14 anos e levavam comida e mochilas. Portanto, as mulheres sempre participaram. Acho que Angola é um país diferente por todas essas razões, pela forma como lutou pela independência e a conquistou e pela forma como as pessoas se posicionam hoje na sociedade.

JA: E como avalia a participação da mulher no processo de reconstrução nacional?

TC: Acho que, infelizmente, não se tem colocado a mulher no devido lugar. Sobretudo nos últimos tempos, em que a nossa sociedade perdeu um pouco o respeito pelos valores morais, éticos e patrióticos. A solidariedade está a desaparecer e o oportunismo a surgir. Nós, mulheres, queremos reforçar os laços de amizade, solidariedade e de aproximação umas com as outras. Foi por isso que o lema do V Congresso da OMA, “Mulher angolana unida pela igualdade e desenvolvimento”, foi bastante discutido e analisado.

JA: Como é que a mulher pode aumentar e melhorar a sua participação na reconstrução do país?

TC: Acho que deve ser feito um levantamento dos quadros, principalmente mulheres, existentes no país. Temos mulheres altamente qualificadas. Licenciadas, com mestrados e outras com várias formações profissionais e tecnológicas. Portanto, esse levantamento deve ser feito, para haver melhor selecção na ocupação dos cargos. É preciso colocarmos também as nossas jovens. Vão ser elas a fazer aquilo que fizemos antes da independência. Têm garra e querem segurar o país. Se não for dada atenção e carinho às mulheres, não vamos muito longe, porque somos a maioria.

JA: Quer dizer que não está satisfeita com a quota de 30 por cento para os lugares de decisão?

TC: Claro que não. Nunca ninguém nos pergunta qual é a quota de filhos que devemos ter, de pratos e lençóis que temos que lavar, de quartos que temos que varrer, de quindas que temos de carregar à cabeça. Nunca ninguém nos pergunta qual é a quota de dias que temos que ficar no hospital quando um filho está doente. Por que é que para ter cargo de decisão temos que ter quotas? Por que é que não há igualdade? Lutei pelas quotas porque era a única forma de termos mulheres nesses lugares. Mas não sou a favor dos 30 por cento. As Nações Unidas dizem pelo menos 30 por cento e não só 30 por cento.

JA: Como estão os países da SADC no cumprimento da quota?

TC: Há países que já têm mais de 30 por cento. Por exemplo, Moçambique e São Tomé já tiveram uma mulher como primeira-ministra. Não há dúvida de que a política é diferente do trabalho de mobilização, mas é preciso que, progressivamente,a mulher seja envolvida em dossiers importantes.  Concordo que não se pode colocar uma mulher num determinado cargo só por ser mulher. Mas é preciso ver a sua capacidade, competência, formação, o seu espírito de trabalho em grupo, o seu nível de respeito pela hierarquia. Todo esse perfil deve ser respeitado. A OMA está a trabalhar nesse sentido. Estamos a realizar seminários para que as mulheres saibam trabalhar em grupo, respeitar a opinião contrária e saber ouvir. Aliás, a nossa organização não cresceria tanto, se não houvesse um bom exercício de base.

JA: Sendo médica, como avalia a situação da saúde da mulher angolana?

TC: Não quero deixar de referir os esforços que estão a ser feitos. Mas tenho que ser honesta. Nunca fico satisfeita quando é construído um hospital e não encontro a base deste hospital, que é o centro de saúde. Quando se constrói um hospital num município tem de se saber qual é o número da população que ali vive e criar centros de atendimento, para evitar que as pessoas se acumulem neste hospital e o transformem em centro de saúde. Gostaria de ver em todos os municípios um bom centro materno-infantil com todo o equipamento, para que a mulher possa fazer o rastreio das principais doenças que causam a sua morte, como o cancro da mama e do colo do útero, fazer pelo menos uma consulta em cada trimestre da sua gravidez, fazer regularmente o controlo da sua tensão arterial, para evitar as crises no momento do parto, que levam à morte, e evitar as hemorragias. Gostaria também que tivéssemos condições para que o parto, um momento tão importante da vida da mulher, seja feito com respeito e privacidade. Como médica de saúde pública, continuo a preocupar-me com os cuidados primários de saúde.

JA: Que mensagem gostaria de deixar às mulheres neste Março-Mulher?

TC: Quero pedir a todas as mulheres para que trabalhem pela preservação da paz. Tenho consciência de que nem todas estão satisfeitas com as suas vidas. Umas querem casa, outras carro, pôr os filhos na escola, emprego para os filhos e que os maridos se comportem melhor. Cada uma tem o seu desejo. Mas se conseguirmos preservar a paz, evitarmos conflitos, mantivermos a nossa estabilidade, tenho a certeza de que cada um dos nossos desejos e sonhos vai ser realizado. Apesar de todas as dificuldades, com a paz conquistada, estamos mais tranquilos.


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