Publicado por José Geraldo Magalhães em Geral - 20/09/2013

Gestações do coração

A gestação do filho de Luciana e Renato, metodistas de Belo Horizonte, durou, mais ou menos, um ano e meio. Sim, isso mesmo. Esse foi o tempo em que aconteceram as idas e vindas à Vara da Infância e Juventude e tentativas frustradas de adoções anteriores até que, finalmente, o João Gabriel chegou em casa nos braços de seus pais. João Gabriel foi um sonho que se concretizou na vida dessa família.

Luciana e Renato casaram-se jovens e fizeram a opção de serem pais após cinco anos de casamento. Contudo, depararam-se com um problema de fertilidade que um primeiro tratamento não resolveu. Mais tarde, Luciana engravidou naturalmente, mas a criança faleceu logo após o nascimento. Foi depois de muitas orações que eles "abriram seus corações para a adoção", nas palavras de Renato, que era mais resistente à idéia: "Eu não queria adotar por puro preconceito, mas Deus me mostrou que não teve nenhum preconceito me adotando como filho. Hoje, entendo que este nosso ato vem de um desejo profundo de amar, assim como Deus nos ama". Durante muito tempo, Luciana e Renato pediram que Deus atendesse às suas orações pela vinda de um filho. E demoraram a perceber que a resposta de Deus estava na adoção. "O João Gabriel era a criança que Deus tinha separado para nós", diz Luciana.

Gláucia, Fernando e Bispo Paulo

A história de Gláucia e Paulo Lockmann, bispo da 1ª Região Eclesiástica, é um pouco diferente. O casal tinha três filhos biológicos quando decidiu adotar o Felipe, então com 9 anos e meio e hoje um lindo rapaz de 16 anos. É a Gláucia quem conta como foi a "gestação" deste filho querido: "Desde os primeiros anos de casados vez por outra falávamos sobre que talvez um dia viríamos a adotar uma criança. Várias vezes no Natal trazíamos crianças para nossa casa para que tivessem um Natal em família, principalmente aquelas que não tinham nenhum vínculo familiar. Quando Ângela, nossa filha mais nova, já estava com 17 anos, trouxemos Fernando para o Natal e ele foi muito paparicado por todos. No dia em que ele voltou para o abrigo foi uma choradeira enorme por parte de minhas filhas e da noiva de meu filho mais velho. Então, resolvemos trazê-lo nas férias de julho. Nessa época ele tinha 7 anos e meio. Numa noite, ao colocá-lo na cama, ele fez a seguinte oração: ´Papai do Céu , quero te pedir que me dê uma família assim como da tia Gláucia´. Bom, não preciso dizer que saí do quarto aos prantos e perguntando ao Senhor se não seria aquela hora que teríamos que tomar uma decisão muito séria. Conversamos em família e decidimos que ele não voltaria para o abrigo. Dei entrada na Vara da Infância com um pedido de guarda temporária. Este é o primeiro passo que se dá. Meses depois a guarda passou a ser permanente e, quando ele tinha 9 anos e depois de várias conversas com a psicóloga e assistente social da Vara da Infância, decidimos adotá-lo. Assim, marcamos uma audiência na qual o juiz pergunta à própria criança se ela quer trocar de nome e fazer parte da nova família. Neste dia o Fernando Luiz Rebouças trocou o Rebouças que tinha em seu nome por Morais Lockmann, igual a seus irmãos mais velhos.

Gláucia destaca que qualquer pessoa que queira adotar uma criança deve, primeiro, dirigir-se à Vara da Infância que existe em cada cidade (veja quadro). Ela também faz um alerta: "Como esposa de pastor e mãe do coração eu gostaria de dizer que esta é uma decisão que tem que ser tomada por todos da família. Também gostaria de dizer que, como pais, temos que esperar que nosso filho(a) do coração seja uma criança normal, nem melhor e nem pior do que se fosse biológico. A criança deve saber a verdade desde cedo, ela é amada e foi escolhida e ela é filha do coração. Nunca se deve esconder esta verdade.Quanto mais cedo ela souber, melhor". Ela diz que Fernando tem duas irmãs biológicas que foram adotadas por outras famílias. Uma foi adotada com 14 anos e está muito bem, fazendo agora o terceiro colegial; a irmã mais nova está com uma família desde os dois anos e somente agora estão entrando com os papeis de adoção, no momento ela tem 10 anos. "Fernando tem 16. É um típico adolescente. Um ótimo menino, simpático, alegre, extrovertido, aluno da Escola Dominical, adora ir nas Juvenílias , mais também não é muito amigo dos livros. Quer mais normal que isso?"

O pastor Oséias Barbosa da Silva, missionário na Inglaterra, concorda com Gláucia: o amor à criança deve fluir de forma natural, sem qualquer diferença em relação a filhos biológicos, e a verdade deve vir à tona tão logo surja interesse da parte da criança. "Em nosso caso, o Júnior soube de sua condição desde seus dois aninhos, pois em um devido momento, a pergunta crucial surgiu: como eu saí da sua barriga?, perguntou ele à mãe. Foi a oportunidade que utilizamos para dizer que ele era filho do coração e explicamos em quais circunstâncias ele veio para nossa família. Não desqualificamos a atitude de sua mãe ao entregá-lo para adoção. Dissemos que ela teve uma atitude digna e amorosa ao saber que não tinha as devidas condições de criá-lo. O amor foi tanto que superou a maternidade".

O Rev Oséias e sua esposa, a pastora Jane, destacam que a adoção é uma bênção, quando, primeiro, se supera a necessidade de repor algo que não se conquistou naturalmente. "É claro que, dependendo da idade dela o desafio torna-se maior. Em alguns casos o desafio é grande, mas nada que não se resolva com muito amor e carinho e a ajuda de especialistas. Em nosso caso, tem sido uma grande bênção e acompanhamos outros casais amigos com a mesma experiência, vivenciando a mesma realidade. Como é gostoso amar e ser amado, construir uma vida em família e fazendo com que todos de casa se sintam felizes e esperançosos pelo amanhã!

Ao encontro do filho real

A maioria das crianças que aguarda adoção é negra e tem pelo menos um irmão

Costuma-se dizer que o processo de adoção no Brasil é burocrático e lento. De fato, uma reportagem publicada pelo jornal Folha de S.Paulo em abril deste ano informa que, enquanto mais de 7.500 brasileiros e quase 300 estrangeiros estão na fila da adoção só no estado de São Paulo, aproximadamente mil crianças e adolescentes esperam pais adotivos. Contudo, o principal motivo desse desencontro é a diferença entre as expectativas dos pais e a realidade dos abrigos. Enquanto grande parte das pessoas deseja adotar só um filho (99%), menor de três anos (83%) e de cor branca (49%), a maioria dos abrigados é de cor negra ou parda (52%), maior de três anos (87%) e possui um ou mais irmãos (56%).

Os dados sobre o perfil pedido pelos pais adotantes referem-se ao estado de São Paulo, em 2005. A comparação da pesquisa com um estudo feito em 2004 revela que o interesse pela adoção vem crescendo. De um ano para o outro, o número de novos pedidos quase dobrou. Segundo Reinaldo Cintra, juiz auxiliar da Corregedoria-Geral da Justiça do Estado de São Paulo, as pessoas também vêm se importando cada vez menos com a cor da pele, escolhendo a opção "indiferente" nesse quesito. Mas o preconceito ainda é um grande obstáculo. Para a assistente social Ana Maria da Silveira, autora do livro "Adoção de Crianças Negras: Inclusão ou Exclusão?" as crianças negras ainda são preteridas por não se encaixarem nos padrões de beleza vigentes em nossa sociedade. Segundo a psicanalista Maria Antonieta Pisano Motta, coordenadora do Gaasp (Grupo de Apoio à Adoção de São Paulo - www.gaasp.net), uma das barreiras à adoção inter-racial é que a diferença de cor deixa a adoção muito evidente. "Fica na cara que o filho não é biológico. E o fato é que muitos pais, mesmo inconscientemente, gostariam de esconder isso", declara a psicóloga ao jornal paulista.

Delamarque Tavares, assistente social da Vara da Infância do Fórum da Lapa, em São Paulo, afirma que uma das barreiras à adoção inter-racial e de crianças mais velhas é o desconhecimento. "Muitos casais não imaginam como é um abrigo, não sabem que quase todas as crianças que estão lá são negras e maiores de cinco anos. Quando se informam, eles se sensibilizam e conseguem migrar da criança idealizada para a criança concreta".

Suzel Tunes

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* Tire suas dúvidas sobre adoção.

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