Publicado por José Geraldo Magalhães em Geral - 13/09/2013

metodistas na revista Raça

Eu tenho fé... e raça também!


Desde os anos 70, o Movimento Negro contemporâneo adotou as religiões de matriz africana como forma espiritual de afirmação. Assim como as pastorais negras católicas, porém, negros evangélicos também afirmam sua negritude, fora e dentro de suas igrejas

REVISTA RAÇA por OSWALDO FAUTINO | fotos RAFAEL CUSATO e DIVULGAÇÃO

Seja em seus cultos ou através dos meios de comunicação, algumas religiões neo- pentecostais mais famosas demonizam tudo o que se relacione às raízes culturais africanas. Combatem os mitos religiosos afros mais intensamente do que pregam os ensinamentos bíblicos. Apesar de transformarem esses mitos em demônios, elas se apropriam dos mesmos símbolos para construir seus preceitos e ritos e, assim, cativar um maior número de devotos.

Seriam, então, as alienações social e étnico-racial condições para ser um bom evangélico? O reverendo Antonio Olímpio de Sant’Ana, da Igreja Metodista do Brasil, prova exatamente o contrário. Aos 73 anos, o mineiro de Rio Piracicaba - hoje morador da cidade de Piracicaba, no interior paulista - é defensor ferrenho dos Direitos Humanos e afirma: "A religiosidade é a maneira de se chegar e vislumbrar o Ser Supremo. Minha religião é Metodista, mas a minha espiritualidade é negra. Antes de ser metodista e cristão, sou negro." Com base nesse pensamento, ele se transformou num dos mais ativos militantes religiosos na luta contra o racismo. Uma militância que extrapola as fronteiras brasileiras. Já passou por 46 países, "em todos os continentes, menos a Oceania, onde estarei ainda neste ano, como membro do Conselho Mundial de Igrejas (CMI). Sou também do Conselho Latino Americano de Igrejas (CLAI) e do Conselho de Igrejas Evangélicas Metodistas da América Latina (Ciemal)", conta. Reverendo Sant’Anna atua não só em entidades religiosas, mas em várias outras do Movimento Negro e da luta pelos Direitos Humanos. "Fui, por exemplo, membro do Conselho do Olodum por cerca de 25 anos." Seu quilométrico currículo inclui publicações nacionais e internacionais e participação na elaboração do documento oficial brasileiro para a Conferência da ONU contra o Racismo, em Durban, África do Sul, em 2001. Já nos anos 70, ele participava, em Minas Gerais, da Comissão Nacional de Combate ao Racismo, criada por um grupo de negros metodistas, que se estendia por três outros estados. Durante 12 anos, eles tentaram, em vão, a oficialização pelo Colégio Episcopal, que temia a desagregação no seio da igreja, a partir dessa discussão.

                                           Revrendo Antônio Olímpio de Sant´Anna

Quando era secretário nacional de Ação Social da Igreja Metodista, diante da discriminação a leigos e pastores negros, o grupo de Sant’Ana realizou, nos anos 80, no Rio de Janeiro, o 1º Encontro Nacional do Negro Metodista. E em 1986, liderou a criação da Comissão Ecumênica Nacional de Combate ao Racismo (Cenacora), da qual foi secretário executivo até 2008. Enfim, para ele chegar a Deus, sua receita é: "Viver intensamente a minha negritude e não dar trégua ao racismo nem ao desrespeito aos direitos dos mais humildes."

 

Na foto ao lado: Diná da Silva, da Igreja Metodista do Brasil, e Hernani Francisco, da Cenacora.

O atual secretário executivo da Cenacora é Hernani Francisco da Silva que, nascido na Paraíba, em família católica, aos 15 anos converteu-se à Igreja Congregacional, pentecostal muito forte no Nordeste. Aos 17, mudou-se para São Paulo e para a igreja O Brasil para Cristo, onde foi líder de mocidade. Na igreja, sentiu o peso do racismo: "Raros negros passam das funções menores, como obreiros e diáconos. Pastores negros jamais participam das cúpulas decisórias. Por eu ser negro, um pastor branco me proibiu de namorar com a irmã de sua esposa. Desde a Paraíba, para elogiar, me chamavam de moreno, mas nas brigas me xingavam de preto." A hora da virada na vida de Hernani aconteceu no dia 13 de maio de 1988: "Morador na Zona Leste, eu nunca saía da região. Mas, naquele dia, resolvi ir sozinho ao centro da cidade. De repente, me vi em meio à grande marcha em comemoração ao centenário da Abolição. Emocionado, tomei como missão trabalhar a negritude dentro da igreja". Entrou para o Movimento Negro: "Muitos me olhavam cismados, por ser evangélico, mas fui apoiado por algumas lideranças". Conheceu o reverendo Sant’Ana, entrou para a Cenacora e também fundou a Sociedade Cultural Missões Quilombo.

"Eu vejo que Jesus é um Quilombo para nós." Empreendedor social, por essa missão, Hernani recebeu o Prêmio Direitos Humanos, do governo federal, o de Destaque Azusa, pela Missão Azusa Brasil, e outro instituído pelo jornalista Gilberto Dimenstein, sendo incluído entre as 50 personalidades destacadas no livro Heróis Invisíveis. Hoje, ele e seus pares buscam novas formas de sustentabilidade para a Cenacora, que é apoiada por dois organismos internacionais: a Igreja Unida do Canadá e o Conselho Mundial de Igrejas. "Criamos a rede social Afrokut, uma Cenacora virtual que conta com mais de 2.100 membros, debatendo temas como a tolerância", explica. A primeira publicação do recém-lançado selo editorial Negritude Cristã é O Movimento Negro Evangélico - Um mover do Espírito Santo, de autoria de Hernani. Serão publicadas também biografias de grandes personagens negros evangélicos e releituras bíblicas: "Todos precisam saber que religiões contemporâneas, como o judaísmo e o cristianismo, beberam na fonte das antigas religiões africanas. O Velho Testamento tem mais a ver com o candomblé, pelo sacrifício de animais, do que com as religiões modernas."

O Lutero negro

A relação entre negritude e protestantismo não é novidade. A primeira igreja evangélica instalada no Brasil, em 1841, no Recife, foi a Igreja do Divino Mestre, fundada e liderada pelo alfaiate negro Agostinho José Pereira. Em contato com protestantes estrangeiros e ávido leitor da Bíblia, ele pregava nas ruas até construir o próprio templo. Chegou a ter 300 seguidores, negras e negros livres ou libertos. A Igreja Fluminense, fundada no Rio, em 1858, pelo reverendo Roberto Kalley, é considerada, oficialmente, a primeira igreja protestante no Brasil. Mas 17 anos antes, na Igreja do Divino Mestre, Agostinho pregava um cristianismo com viés social e ensinava seus fiéis a ler e a escrever, quando a maioria dos donos de terras e de escravos eram de analfabetos. Agostinho falava num Cristo não-branco e que o povo negro foi a primeira criação humana de Deus. A libertação citada na Bíblia, para ele, era o fim da escravidão. Seus modelos eram a Revolução Libertária do Haiti (1804) e a Revolta dos Malês (1835), na Bahia. Considerado herege pela Igreja Católica e subversivo pelo Estado, foi preso aos 47 anos como rebelde e fanático religioso. A repressão se estendeu aos demais fiéis. O naturalista inglês Charles B. Mansfield o considerou um Lutero Negro. Sobre o destino de Agostinho José Pereira, pouco se sabe. Jornais da época falam que foi condenado à prisão e outros, que foi deportado. Pesquisadores têm vasculhado a documentação forense e publicações para escrever melhor essa história.

Referência feminina

Unanimidade nacional quando se busca uma mulher atuante na Pastoral de Combate ao Racismo, Diná da Silva Branchini é assistente social, musicoterapeuta e mestre em Ciências da Religião. Ela coordena o Ministério de Ações Afirmativas Afro-descendentes da Igreja Metodista do Brasil para a 3ª Região, que inclui a Grande São Paulo e parte do interior do estado. Nascida em Piquete, no Vale do Paraíba, numa família evangélica, Diná confessa: "Me descobri negra lá pelos 40 anos. Terceira geração de uma família metodista, sou filha de um pastor que atuou em várias cidades, como Sorocaba, onde há uma comunidade quilombola. Mas jamais refletíamos sobre esse assunto. Ao contrário, tanto em casa quanto na igreja, tudo o que se referia aos negros e à sua cultura não prestava." Mudando-se para São Paulo, a família se relacionava quase que apenas com os membros da igreja, de maioria branca. "Eu achava que era tratada igual aos demais, mas nas brigas ‘virava’ negrinha", lembra-se. Ao iniciar, na igreja, um namoro com um rapaz de ascendência italiana - hoje seu marido -, a mãe a alertou de que a família dele poderia não aceitá-la: "Isso eu nunca percebi. Mas senti outras rejeições, que sempre imaginava ser pessoal e nunca que fosse preconceito ou racismo."

Pouco depois de se casarem, o marido foi trabalhar no Rio de Janeiro. "Você vai voltar mais preta", comentou uma amiga de Diná: "E foi exatamente o que aconteceu: Lá eu vi que a rejeição não era pessoal, mas coletiva". Na volta, foi trabalhar no Setor de Promoção Social de Guarulhos. Ao advertir um funcionário branco que lia jornal em vez de trabalhar, ele se queixou à direção de que não aceitava tomar bronca de uma mulata. "Ao mesmo tempo, observei o quanto uma colega negra retinta era perseguida."

No curso de Musicoterapia, ela tomou consciência de que não conhecia nada da música negra, nem da cultura afro-brasileira. "Comecei, então, a me aproximar das ‘coisas de preto’ (risos). Numa festa da Consciência Negra próxima a Volta Redonda, me convidaram a desfilar com roupas afro e eu aceitei. Fiquei parecida com uma mãe de santo. Achei ótimo. Foi meu autorreconhecimento."

Em vez de abandonar a fé evangélica, Diná preferiu levar essa reflexão para sua igreja, alertando que "Zumbi não é o demônio e que temos de pensar no sofrimento do povo negro." Introduziu instrumentos musicais e adereços de inspiração africana em alguns cultos. Também realizou palestras em Mogi das Cruzes e Suzano, onde reside, sobre a anemia falciforme, com auxílio da prima Berenice Kikuchi, uma das autoridades no assunto. Coordenadora, de 2000 a 2004, do Fórum de Mulheres Negras Cristãs, criado pela Cenacora, Diná conclui: "Para John Wesley, fundador do metodismo, ‘o Cristianismo é uma religião social’. O religioso, o social e o cultural não se separam. Quanto mais conheço a nossa cultura, mais compreendo a minha fé."


Vera Maria Roberto, da Igreja Presbiteriana Independente 


 Graduada em Educação Física, com especialização em Saúde Pública, Vera Maria Roberto fez mestrado em Praxis Social, Ciências da Religião e Sociedade. Paulista de Monte Aprazível - residente no Balneário Caboriú, em Santa Catarina -, é membro, desde o nascimento da Igreja Presbiteriana Independente (IPI), na qual seu pai era presbítero e a mãe, diaconisa. Desde a adolescência representava a igreja local nas atividades em outras cidades. Capacitou-se na participação em debates e se apoderou de traquejos diplomáticos. "Quando chegamos a São Caetano do Sul, nos anos 60, meu pai apresentou ao pastor da igreja que iríamos frequentar uma carta do pastor de nossa cidade. A resposta desse religioso filho de alemãs foi: ‘Você é presbítero lá. Aqui, você não é e nunca será’". O pai de Vera respondeu: "Fiz minha obrigação, quanto a ser presbítero ou não, isso é outro assunto." Apesar da péssima recepção, a família se manteve naquela igreja. Apanhava crianças em favelas e as levava à escola dominical. Até perceberem que muitos fiéis as rejeitavam: "Criamos, então, um ministério em casa para entender aqueles que não eram bem-vindos à igreja. Ao mesmo tempo, forçávamos uma abertura de espaço para mudar aquela situação."

Com espírito de liderança, Vera se popularizou não só na IPI, mas também em várias outras igrejas: "Fiquei bastante conhecida. Mas, ao chegar a alguns lugares, pela primeira vez, muitas pessoas passavam por mim sem nem sequer me cumprimentar. Quando ficavam sabendo que eu era Vera Roberto, porém, imediatamente mudavam de postura". Nomeada coordenadora da Pastoral de Negritude, no Conselho Latino Americano de Igrejas (CLAI), que reúne representantes de igrejas evangélicas e ortodoxas, ela afirma que tanto empenho é uma releitura da Bíblia, através de uma visão de negritude. "Não somos todos iguais, mas todos devem ter iguais oportunidades." Vera Roberto revela que "no meio ecumênico, a cultura indígena, aborígene, é aceita com mais facilidade que os elementos de origem africana, muitas vezes demonizados."

Samba e Ecumenismo

Na foto, à direita: Moisés regendo o Coral Resistência Negra

Para quem vive em São Paulo, o nome do radialista Moisés da Rocha é imediatamente relacionado a O Samba Pede Passagem, programa que, há décadas, ele apresenta pela Rádio USP/FM. Assim como anuncia as músicas, seus intérpretes e compositores, ele noticia eventos das escolas de samba, missas afro - em memória de artistas ou personalidades do mundo do samba - ou ainda, as festas em terreiros de umbanda e candomblé. O que poucos sabem é que Moisés é metodista e regente do Coral Resistência de Negros Evangélicos, também conhecido por Coral Resistência Negra. Idealizado pela pianista e cantora Nilcéia Netto, para uma apresentação em 13 de maio de 1988, na comemoração do centenário da Abolição, esse coral prosseguiu e hoje se compõe de cristãos de várias denominações religiosas. Além dos ensaios e das apresentações, seus integrantes participam também de debates sobre preconceito racial e exclusão social "além de todas as formas de discriminação enfrentadas, principalmente pelos negros, até mesmo dentro de Igrejas Evangélicas", afirma Moisés. O repertório do Coral Resistência Negra se compõe de música clássica religiosa, canções folclóricas e populares e também de negro spirituals. "Os sentimentos no canto de trabalho, de dor e de esperança dos negros escravos americanos são similares aos nossos". Ex-integrante da Força Internacional de Paz da ONU, no Canal do Suez, Moisés da Rocha contata que: "Quase todos os povos que aqui vivem têm suas associações e corais. Só os afro-descendentes causam espanto." Em suas palestras, aponta como solução das mazelas sociais algo bem simples. "O cumprimento dos mandamentos de Nosso Senhor Jesus Cristo, da Declaração Universal dos Direitos Humanos e das Leis do País, em especial as que garantem a igualdade de oportunidades, tão descarada e hipocritamente desrespeitadas."

por OSWALDO FAUTINO  - Fonte Revista Raça Brasil


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